E daí voltamos ao emule. Eu gosto de fazer desafios a ele. Outro dia, peguei um livro de história do cinema para pesquisar filmes sobre o cinema tcheco dos anos sessenta. Encontrei um autor chamado Jaromil Jires, que adaptou um livro do Milan Kundera de que gosto bastante, chamado A Brincadeira. Fui ao emule, e nada menos do que cinco filmes do diretor estavam disponíveis! E com legendas em inglês!

Naomi Kawase
Naomi Kawase

Através do emule, tive acesso a cineastas fantásticos, como Jean-Marie Straub, Sergei Paradjanov, Miklos Jancso, Carmelo Bene, além de mais de trinta filmes de Yasujiro Ozu e mais de quinze Kenji Mizoguchi. Além de outras bobagens, como os filmes de Rocco Siffredi e de Seymore Butts (ninguém usa o espaço fora da tela melhor que o primeiro e ninguém usa o plano ponto de vista melhor que o segundo!).

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O emule tem também uma função imprescindível: é a única ferramenta disponível para que o cinéfilo se mantenha atualizado com o que vem sendo feito em termos de cinema contemporâneo. O circuito das salas de arte (no eixo Rio - São Paulo, leia-se Arteplex e Estação) tem se mostrado limitado para a exibição de filmes que propõem um trabalho de fronteira no que diz respeito a novas possibilidades de linguagem para o cinema. O Festival do Rio e a Mostra de São Paulo tentam completar essa lacuna. Mas, além do clima insuportável que gira em torno dessas mostras (filmes lotados, público paranóico, grande número de filmes num curto intervalo de tempo, etc.), e da geração de “críticos chatos” (além de corporativistas e “do contra”) que lotam as sessões mais exclusivas, há alguns filmes fundamentais que escapam mesmo da triagem dos festivais, permanecendo inéditos no Brasil. Há alguns anos só era possível ter acesso a esses filmes se viajássemos para o exterior. Agora, eles estão logo ali, no tal de emule.

Obras de cineastas fundamentais como Naomi Kawase, Hou Hsiao-Hsien, Carlos Reygadas, Bela Tarr, Apichatpong Weerasethakul, Sharunas Bartas, Shinji Aoyama, Pedro Costa, Claire Denis, Nobuhiro Suwa, Jia Zhang-Ke, Hong Sang-Soo, Im Kwon-Taek, João Cesar Monteiro e filmes fundamentais de cineastas um pouco mais conhecidos (Rosetta, Last Days, Goodbye Dragon Inn, O Princípio da Incerteza, Mãe e Filho) e desconhecidos (A Morte do Sr. Lazaresco, A Ferida) permanecem completamente desconhecidos do público brasileiro que não tem acesso à grande rede. E esses, atualmente, são os grandes nomes do verdadeiro cinema de vanguarda mundial.


A Morte do Senhor Lazaresco de Cristi Puiu

Quando se fala que “o cinema de hoje não é mais como antigamente”, que os filmes dos últimos anos não possuem o nível de ousadia e inventividade de décadas atrás, isso acontece porque, na verdade, a maior parte dos cinéfilos de hoje não tem acesso a esses filmes listados no parágrafo anterior. E, claro, também pela desinformação dos críticos dos grandes veículos, que desconhecem o verdadeiro cinema contemporâneo.

O objetivo das colunas que pretendo discorrer a seguir é colocar um pouco mais de luz sobre a filmografia desses ilustres desconhecidos. Eis o cinema contemporâneo. Isso tudo graças ao emule, é claro. Banzai!


Marcelo Ikeda
Cineasta e crítico de cinema. Diretor de Em Casa, O Posto, Desertum, entre outros. Assina o blog Cinecasulofilia: http://cinecasulofilia.blogspot.com