

Ao lermos a obra de João Antônio, uma das tarefas mais difíceis é enquadrá-la dentre as muitas classificações literárias convencionais: realismo feroz, conto-reportagem, ficção autobiográfica, literatura urbana, etc. Podemos dizer que a mistura de tudo isso faz parte do universo ficcional de João Antônio. No entanto, o que mais nos chama a atenção na escrita do escritor paulista é a sua estratégia de apresentar o universo urbano da cidade de São Paulo através do olhar dos marginalizados sociais. Sua obra é povoada por malandros, prostitutas, cafetões, meninos de rua, moradores da periferia, ou seja, os “sem eira nem beira”, como costumava denominá-los o próprio escritor.
Sua origem humilde talvez possa explicar essa preferência pelos menos favorecidos. Oriundo de uma família pobre de imigrantes portugueses, João Antônio Ferreira Filho nasceu no subúrbio de Presidente Altino a 27 de Janeiro de 1937 e faleceu no Rio de Janeiro, aos 59 anos de idade. Trabalhou em fábricas e como office-boy antes de iniciar sua carreira de escritor e jornalista. Foi um dos fundadores da revista Realidade e também trabalhou na revista Manchete e no Pasquim. Além disso, contribuiu com vários órgãos da imprensa “nanica”, termo usado pelo autor para designar a imprensa alternativa. Seu livro de estréia, Malagueta, Perus e Bacanaço, de 1963, agraciado com um prêmio Fábio Prado, dois prêmios Jabuti (autor revelação e melhor livro de contos) e traduzido para várias línguas, é uma inserção no submundo paulistano da malandragem. Em 1975, publica Leão-de-Chácara (vencedor do Prêmio Paraná de 1974) e Malhação do Judas carioca. Entre 1976 e 1996, publica Casa de loucos (1976), Calvário e porres do pingente Afonso Henriques de Lima Barreto (1977), Lambões de caçarola (1977), Ô Copacabana! (1978), Noel Rosa (1982), Dedo-duro (1982), 10 contos escolhidos (1983), Meninão do caixote (1983), Abraçado ao meu rancor (1986), Zicartola e que tudo mais vá pro inferno! (1991), Os melhores contos (1986), Guardador (1992), Paulinho Perna Torta (1993), Um herói sem paradeiro: vidão e agitos de Jacarandá, poeta do momento (1993), Afinação da arte de chutar tampinhas (1993), Patuléia, gentes da rua (1996), Sete vezes rua (1996).

Capa de Malagueta, Perus e Bacanaço em sua mais
recente edição pela CosacNaify
Em grande parte de seus contos e crônicas, João Antônio mostra uma cidade – seja São Paulo, Rio de Janeiro ou Amsterdã – povoada pelos excluídos sociais que buscam a sobrevivência como podem. Para Tania Macêdo, uma das estudiosas da obra do autor, podemos analisar a escrita de João Antônio sob a ótica de uma forte denúncia ao brusco processo de desumanização do trabalhador urbano. Um dos aspectos estruturais de sua narrativa utilizados para desenvolver essa verve denunciatória é a linguagem. Por meio de uma linguagem simples, despojada, uma sintaxe livre e um vocabulário próprio da população da periferia dos grandes centros urbanos, João Antônio compõe seus personagens. Utilizando-se dessa linguagem, o autor nos lança no universo de uma São Paulo violenta e degradante em muitos de seus contos. Seus personagens solitários perambulam pelos becos imundos e pelas ruas escuras da cidade, como flaneurs desorientados. Para o crítico Fábio Lucas, os personagens de João Antônio se parecem com seres anfíbios, transitando pelos campos sociais público e privado. É o que ocorre com os protagonistas do conto “Malagueta, Perus e Bacanaço”, uma vez que estes se configuram como heróis de uma empresa sem sucesso, praticando assim, um protagonismo sem finalidade e realizando uma junção entre o vulgar e o sublime. No entanto, o que prevalece nos contos de João Antônio é a brutalidade, a miséria e a falta de perspectiva dos personagens. Há em seus contos uma ausência de sentimentalismo e uma aspereza que reforçam ainda mais a violência verbal verificada nos contos. As frases são curtas, o vocabulário direto e visceral, sem maiores rebuscamentos. O autor não busca em nenhum momento atenuar a leitura das narrativas.

Em João Antônio a pobreza e a miséria não são observadas a distância. Os marginalizados não são personagens exóticos, distantes da realidade do narrador. Muito pelo contrário, o narrador de João Antônio incorpora a pobreza e a miséria, dando voz aos “sem eira nem beira”.
Nos contos do autor, as ruas da periferia ou do centro da cidade de São Paulo não servem apenas como pano de fundo para as ações dos personagens, já que são objeto para sua crítica ao falso progresso, à urbanização desenfreada e caótica da cidade, caracterizadas pela exclusão da maior parte da população que nela habita. A impressão que temos é que sem a cidade como cenário os personagens não teriam a mesma força, a mesma contundência. Intercalando a composição do espaço das ruas da cidade com as descrições físicas dos personagens, João Antônio confere um ritmo vigoroso às narrativas, nas quais nos apresenta o duro cotidiano dos que buscam a sobrevivência na metrópole que cresce desordenadamente. Este é um dentre os muitos aspectos que aproximam suas narrativas às de seu mestre Lima Barreto.
Admirador confesso do escritor carioca, João Antônio declara em carta endereçada ao amigo Mylton Severiano:
E o mulato de Todos os Santos, Afonso Henriques de Lima Barreto, pouco a pouco vence os preconceitos – era preto e escreveu sobre a ralé e, entre outras “ousadias”, arrostou vários poderosos de seu tempo [...] Um dos mais fortes escritores que este país já teve, Lima Barreto, cuja obra mantém uma atualidade impressionante, morria em 22. O Brasil que ele viu, pensou e retratou está mais vivo do que nunca – um país de potencialidades enormes e tropeçando dramaticamente em estruturas e em sistemas arqui-atrasados. Também por isso, a importância dos livros de Lima Barreto cresce à medida que o tempo passa.
Assim como em Lima Barreto, nos contos de João Antônio nos deparamos com um narrador que observa a cidade em suas mais variadas nuances, porém, sempre pela ótica dos esquecidos, dos marginalizados, dos malandros tristes e melancólicos que a sociedade finge não enxergar. Em sua obra podemos verificar o desumanizador e excludente processo de urbanização pelo qual passou a cidade de São Paulo.

Nas narrativas do escritor paulista também há lugar para o humor. Contudo, o riso que João Antônio provoca no leitor não é o riso apaziguador, que busca quebrar a tensão da narrativa, mas sim o riso trágico e perturbador que faz o leitor refletir sobre a condição miserável dos personagens.
Por meio de um discurso irônico e corrosivo - outro aspecto de diálogo entre a obra de João Antônio e Lima Barreto – o escritor se apropria do espaço urbano da cidade, dando voz aos seus vagabundos solitários que perambulam em círculos por uma São Paulo injusta e decadente, construindo, assim, uma literatura fundamentalmente realista e de contundente crítica social. Este é um dos aspectos que mantêm a obra de João Antônio atualíssima.
O sem eira nem beira ainda perambula errante pelas quebradas do centro da cidade observando a vida das prostitutas e dos vagabundos e procurando por um “parceirinho” para uma partida de sinuca.
Sérgio Saraiva
É formado em Letras pela Universidade de São Paulo. Desenvolveu o projeto de IC “O espaço urbano das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo em contos de Lima Barreto e João Antônio” e atualmente estrutura um projeto de mestrado sobre a função da ironia na obra dos dois autores.