Soberano Absoluto - Paulo Moreira

Kazumi era um homem comum. Nascido no Japão, mas morando no Brasil havia vários anos. Em São Paulo, no bairro da Liberdade. Os pais, velhinhos, moravam com ele, na casa que ficava no fundo do modesto botequim, seu meio de vida. Como filho mais velho, coube a ele cuidar dos pais, quando envelheceram. Dos pais e do botequim. Assim era a tradição. Os dois irmãos mais novos, que puderam estudar, permaneceram no Japão, casaram-se, formaram famílias. Ele não. Tinha só os pais, velhinhos, e o botequim. De resto, era um homem comum.

Kazumi falava um português nipônico com sotaque muito carregado. Afinal, só precisava do português para conversar com os fornecedores de bebidas e cigarros. Com a freguesia podia falar em japonês mesmo. Podia, não; era obrigado, pois falavam em japonês com ele. Tinha dificuldade para pronunciar o som da letra L – dizia “ére” – e tinha grande dificuldade com as consoantes frouxas, que não eram seguidas por vogais. Por isso a cerveja Antártica, no bar do Kazumi, chamava-se Tátchica. Ele também tinha Borama e Kaisa, e a mais vendida, a Sikoru. A cerveja gelada era a companheira ideal do camarãozinho na bosta, frito inteiro, com patas, casca e cabeça, apenas passado no creme de fazer tempurá. Os fregueses, praticamente todos descendentes de japoneses, gostavam do camarão frito de Kazumi.

Afora o sotaque, Kazumi era um homem comum, de seus quarenta e tantos anos, dono de um modesto botequim comum. Por isso estranhou quando aquele trio de brasileiros – pelo menos pareciam brasileiros – sentou-se na única mesa do bar. A maioria dos fregueses, conhecidos de muitos anos, preferia ficar no balcão para trocar um dedo de prosa. Em japonês.

Os caras chegaram mais ou menos à uma hora da tarde, e queriam saber o que tinha para o almoço. Ora, o que tinha para o almoço! Era claro que não eram fregueses, pois estes nunca perguntavam o que havia, já que a comida era feita na hora. Tinham de dizer o que queriam.

– Tá vendo a diferença, Rodrigues? – Disse o de barba. – Eles fazem a comida na hora que você pede, não é nada requentado, não é “self service ao perdigoto”. É comida feita na hora.

– Também! Não precisam cozinhar! Eles comem o peixe cru!

– Mas você não precisa pedir peixe cru, que eu também não gosto muito. Tem o sushi...

– Sushi non faz – atalhou rapidamente o Kazumi.

– Ah, mas tem yakisoba, que parece macarronada com vegetais, tem o tempurá, que é uma delícia, tem peixe frito, aquele arroz grudadinho, os mais diversos vegetais com tempero adocicado, gergelim e vinagre de arroz, uma delícia. Não tem nada a ver com esses restaurantes japoneses modernos. Aqui é comida japonesa do dia-a-dia. Os restaurantes japoneses modernos têm como maior atrativo o sushiman, que faz o sushi na hora, na sua frente, mas...

– Sushi non faz – repetiu Kazumi preocupado.

Se os fregueses insistissem no sushi, ele teria de ir buscar nalgum vizinho as algas pretas que servem para enrolar a massa de arroz. E Kazumi não se considerava um bom sushiman. Bons nessa tarefa são os cearenses, como se pode observar em muitos restaurantes japoneses de São Paulo. – Sushi non faz – insistiu ele mais uma vez, com aspecto sério.

– Tudo bem, nós não queremos sushi. Acho que vou querer um yakisoba com shiitake e uma boa porção de tempurá. Tem camarão?

– Craro! Camarô bom! Camarô tempurá! Bom! – Disse feliz o Kazumi, que finalmente poderia oferecer ao freguês sua especialidade.

– E peixe frito, tem? – Perguntou o Rodrigues.

– Peixe furito tem. Non tempurá. Só assim furito.

Rodrigues não entendeu direito, mas pediu assim mesmo, com uma porção de arroz. Aí o César, o terceiro elemento, abriu pela primeira vez a boca para exibir toda sua sabedoria:

– Ô Carlinhos, você que conhece o homem, pede logo para ele trazer um pouquinho de cada comida e a gente vai experimentando.

– Eu não conheço não. Só vim aqui uma vez. Mas a comida é decente. E a cerveja é bem gelada.

A sabedoria cesária prevaleceu e Carlinhos tratou de explicar ao Kazumi o que a moçada queria. Kazumi pareceu feliz com o pedido. Muitos pratos que ele sabia preparar nunca eram pedidos. Agora teria oportunidade de exibir seus dotes culinários, apresentando a cozinha japonesa para uns brasileiros meio estranhos, mas que pareciam ser gente boa. Já na cozinha, que consistia em um balcãozinho e um grande tacho em formato de calota de Fusca antigo na outra ponta do balcão, Kazumi estica o pescoço e fala para os fregueses: – Sushi non faz. – Só para ter certeza.

– Tá bem, sushi non faz. Traz uns saquês para a gente de aperitivo.

– O meu, quente, faz favor – pediu Rodrigues.

– Ué! Você conhece saquê?

– Ah, meu caro, você não conhece meu passado. Já nadei de braçadas nessa cultura oriental. Tive até uma namoradinha japonesa!

– E ela bebia muito saquê?

– Não, não bebia nada. Mas era quente...

Kazumi ficou feliz ao ouvir as risadas. A piada ele não ouviu, mas freguês que ri na mesa é bom sinal, bebe bastante cerveja. A tarde prometia.

Tirando a Galvão Bueno e umas outras poucas ruas com mais comércio, a Liberdade era um bairro calmo. Nas tardes de calor Kazumi freqüentemente cochilava no balcão, esperando algum freguês que viesse comprar cigarros. Pouca gente passava na rua. Carros, sim, mas pessoas a pé, que pudessem pelo menos cumprimentá-lo, abaixando a cabeça e dando um sorriso, mesmo sem entrar no botequim, eram raras. Aquela tarde decerto seria mais animada.

Kazumi escolheu os copinhos mais bonitos para os saquês. Dois redondinhos de porcelana para os gelados e um quadrado, laqueado, para o morno. Gostou de ver quando Rodrigues insistiu para que os companheiros experimentassem o saquê morno no seu próprio copo. E todos riram da dificuldade que César teve para abordar um copo quadrado com uma bebida desconhecida que ele imaginava estar muito quente.

– Vai no cantinho – disse Carlinhos.

– Ah-ah-ah, no cantchinho – riu Kazumi.

– Não é assim? – perguntou Carlinhos.

– Hai! No cantchinho! Hai!

É, a tarde prometia. Os brasileiros eram simpáticos, alegres. Iam beber muita cerveja, rir muito e Kazumi ia se divertir. Ou talvez não. Talvez ficassem no saquê como aperitivo, almoçassem e depois tomassem um chá na hora de ir embora. Ah, não! Kazumi ia usar de toda sua ciência para segurar os fregueses um bom pedaço da tarde. Precisavam beber cerveja. Afinal, a cerveja era o que dava mais lucro no botequim. A comida era barata e o ganho era pequeno. E desde que a Abadia foi-se embora, o movimento andava fraco. Era bom ter uma companhia alegre para a tarde, mesmo que fosse a de desconhecidos.

Rapidamente pegou um fogareirinho de mesa, que não usava desde muito tempo, botou uma panelinha com água já quente sobre o fogo e levou aceso, com a garrafa de saquê morno em banho-maria. E pegou mais dois copinhos laqueados quadrados, daqueles que fizeram sucesso. Os caras gostaram. Voltou para a cozinha e rapidamente fritou um punhado de cogumelos shiitake na manteiga. Era um ótimo tira-gosto. Deu certo. Antes mesmo que começasse a levar mais comida para a mesa, a garrafinha de saquê esvaziou. Mais uma garrafinha, agora acompanhada de pedacinhos de peixe frito. Costumam chamar isso de isca de peixe, mas Kazumi sabia muito bem que isca de peixe era minhoca, porque aos domingos ele ia se divertir num pesque-pague da periferia. E ele jamais serviria minhocas para os fregueses. A menos que insistissem. Tempurá de minhoca. Kazumi riu de suas idéias atrapalhadas.

A segunda garrafa de saquê morno reforçou o calor que fazia naquela tarde, por isso não esvaziou. Mas os pedaços de peixe frito sumiram rapidamente. Assim que levou o primeiro prato – gamelinhas de missoshiru, a gostosa sopinha de massa de soja com pedacinhos de tofu, mais uns mariscos que Kazumi achava essenciais, e cebolinha verde picada por cima – Kazumi percebeu que o consumo de saquê havia caído. “É a hora!”, pensou, e ofereceu:

– Tátchica, Borama, Kaisa, Sikoru?

Silêncio. Os três fregueses ficaram paralisados, com os palitinhos no ar. Mas durou pouco o susto. Carlinhos rapidamente compreendeu:

– E aí, vamos tomar uma cerveja? Qual está mais gelada?

– Tudo djerado. Bom djerado.

– Que marcas você tem? – perguntou maliciosamente César, só para ouvir novamente a frase misteriosa. Rapidamente Kazumi recitou seu mantra:

– Tátchica, Borama, Kaisa, Sikoru – desta vez sem interrogação.

As três primeiras, tudo bem, mas a Sikoru pareceu a César ser uma marca estranha, provavelmente japonesa. E ele achava que precisava conhecê-la.

– Essa última aí. Eu quero dessa última.

– Sikoru, hai.

– É. – confirmou César. – Sikoru Hai.

– Ué, você bebe Skol? – estranhou Rodrigues, que achava que se podia conhecer o caráter de uma pessoa pelo que ela bebia. E César tinha todo o jeito de quem bebia Brahma.

– Não, eu pedi essa Sikoru Hai.

– É Skol!

– Não, deve ser alguma marca japonesa.

– É Skol, cara. Sikoru, em japonês!

– Sikoru, hai. – assegurou Kazumi, que aguardava a decisão dos fregueses.

César, ainda em dúvida, perguntou diretamente a Kazumi:

– Essa Sikoru Hai é a Skol?

– Hai! Sikoru, hai! Redôôôôônido! – respondeu Kazumi sorridente, enquanto fazia um giro com o indicador.

Novas gargalhadas, vai Skol mesmo, quem sabe agora está boa, se estiver gelada é boa, gelada em cima da mesa até minha sogra é boa, mais risadas... Agora a coisa estava indo bem. Hora de levar a cerveja e o yakisoba, que todo mundo gostou. A manteiga da fritura do shiitake estava ainda no fundo da enorme calota de fusquinha antigo, de modo que deu um saborzinho todo especial aos legumes coloridos que cobriam fartamente o macarrão. Kazumi estava feliz. Os fregueses estavam gostando da comida e da bebida. Do serviço, ele nem se lembrava, porque isso era obrigação. Mas gostava de ouvir um elogio à comida, o que era muito raro, desde o tempo da Abadia. Ela gostava muito da comida que Kazumi fazia. Comia bastante.

Maria da Abadia era uma goiana de seus vinte e poucos anos que Kazumi contratara como garçonete alguns anos antes. Não era nenhum espetáculo de mulher, embora não fosse feia, mas tinha certos atributos que faziam muito sucesso entre os moradores da Liberdade, sobretudo os mais velhos. Sorridente, educada e calada, vestia-se com simplicidade e discrição. Seu uniforme era um vestido cinza claro, reto, abotoado na frente, e comprido até a altura dos joelhos. Parecia um guarda-pó. Por cima do vestido, um avental branco. E era aí que morava o perigo. As tiras do avental, quando amarradas, faziam com que o vestido modelasse o corpo de Abadia e revelasse a diferença de potencial entre a fina cintura da moça e seus portentosos quadris. Quem conhece eletricidade sabe que diferença de potencial é o mesmo que voltagem, tensão. Alta voltagem, no caso. Alta tensão.

Os velhinhos, que eram maior parte da freguesia, ficavam no balcão tagarelando em japonês e calavam assim que a moça se dirigia para a “cozinha” para buscar uma cerveja no balcão refrigerado que ficava no fundo do botequim. Eram uns dez passos, se tanto, mas muito bem pisados, modulados pelas nádegas da moça, que deslizavam por debaixo do vestido. Os velhinhos paravam de beber, paravam de falar, paravam de rir e alguns até de respirar, com medo que a mais tênue brisa pudesse romper o encanto da cena.

– Badjia! Sikoru!

E lá ia ela buscar a cerveja, para o deleite de todos os olhos apaixonados pelos encantos de Abadia. O movimento das cadeiras de Abadia fazia crescer o movimento do botequim. Os velhinhos não tinham nada para fazer e vinham todos ver Abadia andar. Só andar, nada mais. Ficavam todos sorridentes quando ela andava; não diziam palavra, e davam mais uma bicadinha na cerveja. Blim-blim na caixa registradora, tum-tum-tum afobado no peito de Kazumi. É Kazumi também era apaixonado pela Abadia. Paixão, amor, tesão, sabe-se lá. Ele nunca soube ao certo. Nem ela. Mas que se casaria com ela, se pudesse, casaria. Ele era solteiro, aliás, muito solteiro, solteiríssimo, no mesmo estado que nasceu. E olha que já tinha nascido havia mais de quarenta anos. Casaria com ela, sim, se tivesse tido tempo.