Kiyoshi Kurosawa

O cineasta japonês Kiyoshi Kurosawa
1 - Introdução

Um dos aspectos mais conhecidos do cinema contemporâneo japonês é o seu diálogo com o cinema de gênero, especialmente no gênero terror ou suspense. Alguns filmes chegaram até mesmo a serem refilmados por Hollywood, como é o caso de Ringu, de Hideo Nakata. Um desses diretores é Kiyoshi Kurosawa, considerado atualmente um dos principais diretores do cinema japonês contemporâneo. Mas a associação de Kurosawa com o cinema de gênero acaba por confundir ao invés de esclarecer sobre a natureza de seu cinema. Apesar de ele ser mais conhecido por seus filmes atípicos de terror, por sua inspiração metafísica, Kurosawa não dirigiu apenas filmes do gênero, como License to Live (um “filme de família”) e Barren Illusions revelam. Mesmo seus filmes mais típicos não trabalham propriamente os elementos do cinema de terror. Em Pulse, por exemplo, os “fantasmas” não provocam nenhuma reação física nos vivos, a não ser despertar sua percepção para algo tão terrível que eles não conseguem mais suportar a própria existência.

Mas a carreira de Kiyoshi Kurosawa (nenhum parentesco com o Akira, mestre japonês) vem de bem antes. Começou a fazer filmes nos anos oitenta, filmes de baixo orçamento lançados diretamente no mercado de homevideo, em geral ligados ao gênero Yakuza. No entanto, mesmo dentro dos exíguos limites desse tipo de encomenda, Kurosawa começou a despertar a atenção dos cinéfilos e críticos japoneses em 1985 com The Excitement of the Do-Re-Mi-Fa Girl. No entanto, seu primeiro grande sucesso foi o thriller de suspense Cure (1997). Logo a seguir, conseguiu uma proeza: foi selecionado, no mesmo ano, para os festivais de Berlim (License to Live), Cannes (Charisma) e Veneza (Barren Illusions), transformando-o num dos principais nomes do cinema japonês.

Pulse, também exibido em Cannes, e com um diálogo direto com Cure, chegou a ser comprado pelos poderosos Irmãos Weinstein para um remake em Hollywood, que seria dirigido por Wes Craven, mas depois o projeto acabou sendo realizado por Jim Sonzero, com um resultado inexpressivo. Com um ritmo menos intenso do que no final da década de noventa, Kurosawa continua dirigindo seus trabalhos no Japão. O Festival de Cannes deste ano apresenta, na Quinzena dos Realizadores, seu novo trabalho: Tokyo Sonta.

Mesmo com toda a repercussão nos principais festivais de cinema do mundo e inclusive com a possibilidade de retorno comercial que vários dos filmes apresentam, até o momento nenhum dos filmes de Kiyoshi Kurosawa foi lançado comercialmente no Brasil. Alguns deles puderam ser vistos apenas em esparsas mostras de cinema, especialmente no Rio e em São Paulo. Recentemente um de seus filmes (Sakebi) foi lançado em homevideo sem alarde, com o estranho título de Vítima de uma Alucinação.

Essa é, portanto, uma oportunidade de apontar para um dos destaques do cinema contemporâneo praticamente desconhecido do público cinéfilo brasileiro.

 

*   *   *

2 – Aspectos Gerais

Como dissemos, a associação do cinema de Kiyoshi Kurosawa com o gênero do terror, feita a partir da repercussão de seus maiores sucessos – Cure e Pulse – traz mais equívocos do que esclarece sobre o espírito dos filmes do diretor. Isto porque, no fundo, seus filmes têm uma inspiração realista: refletir sobre as angústias existenciais de pessoas que vagueiam num Japão contemporâneo, sua inadaptação a um cenário de contínua solidão.

Mais que o cinema de terror, uma outra referência é a de um “realismo mágico”: a interação de elementos externos que fazem com que os “vivos” reavaliem sua própria existência. São os “fantasmas” de Pulse e Sakebi e mesmo a árvore de Charisma e a água-viva de Bright Future. Os elementos da natureza também são utilizados de forma a provocar uma reflexão sobre o distanciamento dos seres humanos de sua essência. Nesse ponto, a água viva de Bright Future possui uma relação com a árvore de Charisma. No entanto, esses elementos típicos de um “cinema fantástico” não provocam um ritmo ágil, um “cinema de aventuras”, mas quase o seu oposto: um cinema baseado nas inações, com tempos contemplativos, planos gerais, planos longos com movimentos de câmera sutilmente arquitetados. Não há improviso no cinema de Kurosawa: tudo transmite uma sensação de longo pesar, um desespero mudo. É como se o mundo estivesse caindo a nossos pés e acompanhássemos seu desmoronamento com imensa sobriedade.

Esse “realismo” do cinema de Kurosawa vem acompanhado de uma atmosfera sombria, asfixiante, de uma transformação abrupta, geralmente pelo acaso ou por motivos não propriamente identificados. Em License to Live, um rapaz desperta após dez anos de coma. Em Pulse, subitamente percebe-se que as pessoas começam a ser invadidas por um sentimento obscuro, quando vêem a “sala escura”. Não há a tentativa de fuga do elemento mágico, e sua essência não é necessariamente ligada à natureza do mal: ao contrário, muitas vezes vem associado com um estranho sentimento de libertação dessa constante e terrível necessidade de viver. Por isso, a morte e a juventude acabam sendo os dois principais motes do cinema de Kurosawa, e não é à toa que ambos caminhem lado a lado. O que parece estar em jogo é a perspectiva do universo dos jovens poder refletir as transformações progressivas da sociedade japonesa trazendo possibilidades mais humanas para si mesmos.