ONILÍRICAS


Diane Arbus

Núpcias

No zás onírico

o desenho do rio do paraíso
se imprime na cauda do pavão azul

bebemos o rio em nosso leito de núpcias

Homúnculo

De onde salta na beirada do sono?

eu pequeno

(fura o texto do sonho
sai pelos meus cotovelos

espreita)

dribla
nos garrafões do vento

entra

Antes de Ontem

Antes que o vento dissesse sua lantejoula e sua carícia
antes que a manhã almiscarasse mais um cisne
antes que o crepúsculo escurecesse mais um grilo
e inventasse mais um sapo
antes que um seixo brotasse da corrente do meu pensamento
e desse cria no meu peito a flor de vertigem
explodindo outra primavera

A tarde seguiria com seus cristais
eu seguiria com o corpo coberto e a alma nua
- sem menina bonita no meio do caminho
- sem doce nem brinquedo
- sem respirar os eucaliptus
- sem o puro azul dos olhos que não miro mais

mas também sem o jaguar, fora do meu espírito
sem a flauta merencória
sem nódoas no tórax apaziguado

sem a grande marca de sombra azulada
de um sorriso que morreu nos lábios meus

vincando as rugas prematuras abaixo dos olhos
como rios secos por onde passaram muitas águas.