Mal dormido, levantou-se mais cedo que de costume e se apressou a caminho do ponto de ônibus. Não seria a mesma linha de costume, mas sim a Via Dolorosa que o levaria, de condução em condução, até a avenida Santo Amaro, à altura do acontecimento da véspera. O movimento era forte quando chegou. E foi direto ao jornaleiro:

– Bom dia.

– Bom dia.

– O senhor viu um elefante aqui ontem à tarde?

– Não vi não.

– Mas não tinha um elefante ali perto da esquina, que atrapalhou todo o trânsito?

– Olha, moço, o trânsito por aqui fica sempre atrapalhado. Tem muito ônibus, caminhão de gás, caminhão de leite,de cigarro, de cerveja, os tanques que abastecem os postos de gasolina...

– Mas ontem à tarde tinha um elefante ali, não tinha?

– Se você está dizendo...

– Não; estou perguntando. Tinha ou não tinha?

– Não sei, meu! Eu fico o dia todo enterrado nessa porra dessa banca, vejo o mundo todo pelas páginas dos jornais e das revistas, mas não vejo um elefante, se aparecer um ali na esquina, entendeu? Eu não estou aqui para tomar conta do trânsito nem das esquinas. Se você perdeu a merda do seu elefante, pode estar certo de que não está na minha banca, tá? Vá procurar em outro lugar! Dá licença, que tenho mais o que fazer.
A irritação do jornaleiro causou espanto em Serginho, mas ele próprio estava irritado, talvez tivesse mostrado seu estado de espírito na conversa. Era melhor pegar leve, chegar mais maneiro nas pessoas. E foi assim que se aproximou da mocinha que estava distribuindo panfletos de um nightclub recém-inaugurado nas proximidades. Serginho era bom de conversa com as garotas:

– Oi.

– Oi – disse ela, com um sorriso inesperado. Quem esperaria um sorriso de uma distribuidora de panfletos, sob um sol de rachar, com o barulho infernal do trânsito? Mas ela sorriu. E ele também:

– Você estava aqui ontem? – perguntou Serginho.

– Estava. Desde segunda-feira. Dá licença.

Os carros pararam no sinal vermelho e ela foi distribuir os panfletos, com sorrisos para todos os motoristas. Alguns sorriam também, outros falavam alguma coisa que a fazia sorrir mais e dizer algumas palavras, mas Serginho não podia ouvir da calçada. O sinal abriu e ela voltou à conversa:

– Então, desde segunda-feira. A casa inaugurou na sexta e a gente vem fazer a promoção aqui.

Serginho pegou um dos folhetos, deu uma olhada rápida. Algumas fotos mal impressas de garotas de biquínis, uma de topless, e o convite para “uma noite alucinante de puro prazer, com o primeiro drinque grátis”.

– Legal. Você trabalha lá?

– É. Por enquanto eu sou garçonete, mas estou fazendo curso de dança, dublagem e striptease. Eu danço bem e tenho um corpinho legal, você não acha? Dá licença.
Mais uma vez os carros param no sinal fechado e a moça vai distribuir panfletos e sorrisos. Um dos motoristas pediu que ela autografasse o panfleto ou qualquer coisa assim, porque ela escreveu alguma coisa no papel impresso. O sinal abriu, o motorista de trás buzinou, e ela correu de volta para a calçada.

– Deve ser irritante esse serviço, não? – Perguntou Serginho.

– De garçonete?

– Não, a panfletagem – explicou ele, apontando para o maço de volantes na mão da garota.

– Eu nem sabia que tinha esse nome. Mas é legal. Tem uns caras meio grossos, mas a maioria me trata bem.

Dizem que eu sou bonita, que sou gostosa, aquele ali até me pediu o telefone, você não viu?

– Vi.

– Escrevi meu nome dentro de um coração e desenhei uma flecha apontando para o número do telefone que está impresso no volante.

– Tem muito disso?

– Pedir telefone, não. Está impresso, né? Tem umas passadas de mão, têm caras que me pedem um beijinho, essas coisas.

– E você dá?

– Beijinho? Dou, sim, mas só no rosto.

De repente ela ficou nervosa e falou depressa, olhando para os lados:

– Você é repórter? Tá gravando, tá filmando? Eu sou “de maior”, ’tá?

– Não, não. Fique tranqüila. Só estou conversando.

– Ah, tá. É que é difícil conversar assim. Dá licença.

Outra vez o sinal vermelho, os motoristas, os sorrisos, gracejos, grosserias, o de sempre. E o sinal verde.

– Então, é difícil conversar neste abre-fecha de farol. A gente podia se encontrar mais tarde... para conversar, beber alguma coisa...

– Não, eu só queria saber se você viu o elefante ontem.

– Ah, meu. Essa é muito velha. Você enfia as mãos nos bolsos, tira os forros para fora e fala para eu pegar natromba, não é isso? É uma bobeira, muito sem graça.

– Não, é sério. Ontem à tarde tinha um elefante aqui na avenida, você não viu?

– Ontem à tarde? Ontem foi quarta-feira, dia de ensaio de striptease. Ontem eu só fiz promoção até 1 da tarde.

Depois fui almoçar e fui para o ensaio. Estou ensaiando um strip com “Stairway to heaven”, conhece?

– A música? Conheço. É do Led Zeppelin. Até toco a introdução no violão.

– Essa eu não dublo porque é voz de homem, só danço e tiro a roupa. Mas é difícil, porque é muito comprida e eu não tenho tanta roupa assim para tirar. Acabo dançando pelada mais de metade da música. Se você quiser posso fazer um strip só para você, com você tocando no violão...

– É. Bem, depois a gente vê isso. Agora preciso achar alguém que tenha visto o elefante. Tchau.

Aproveitando o sinal fechado, Serginho atravessou a avenida. Deu uma olhada para a putinha, que estava no meio dos carros. Ela estava olhando para ele e girando o indicador em torno da orelha. Não entendeu se estava chamando-o de biruta ou se gesticulava para que ele ligasse para ela. No tempo dos telefones de disco, ambos os sinais se confundiam. Mas ela apontou para o panfleto, no qual havia o número do telefone do nightclub. Ele entendeu que era para ligar e fez com a mão um sinal de positivo, apesar de nem saber o nome dela. Talvez apontar para o panfleto fosse apenas uma desculpa. Ela achava que ele não era muito certo das idéias, mas como ele a viu girando o dedo, ela mostrou o papel, explorando a ambigüidade do gesto. Mais uma olhadinha. Ela estava de costas agora e, mesmo à distância, via-se que tinha um corpinho atraente, mas não sabia nada do elefante, então não tinha utilidade no momento. O engenheiro Ricardo teria gostado de ouvir isso, pois vivia dizendo para Serginho manter o foco no que tem importância. “Foco, garoto, foco”, dizia com freqüência.

O manobrista do salão de beleza foi o próximo entrevistado. O sujeito não estava muito a fim de conversa. Ficava olhando o trânsito. Cada vez que um carro diminuía a velocidade, ele se curvava para tentar ver o motorista. Se fosse uma mulher, ele assumia uma postura de alerta, pronto para correr até o carro, abrir a porta para a freguesa e assumir o volante para estacionar. Não queria se distrair com conversa mole:

– Olha, meu, se o elefante fosse guiado por uma mulher e parasse aqui na frente, eu ia lá e estacionava o bicho. Mas se não parou aqui na frente, eu não vi.

– Mas ele estava ali na esquina.

– Desculpa, cara, eu não vi nada.

– Mas os carros ficaram parados um tempão.

– É, isso é irritante. Às vezes fica engarrafado muito tempo, mas não adianta a gente querer descobrir o motivo. Deve ser carro demais.

– Não. Ontem era um elefante.

– Ou podia ser um acidente, um caminhão parado, um ônibus quebrado, um atropelamento lá no Pegue-pague. Podia ser qualquer coisa.

– Mas foi um elefante.

– Pode ser. Eu não vi.

Serginho percebeu que não adiantava argumentar. O manobrista só olhava os carros que passavam do lado da avenida onde ficava o salão de beleza. O que ocorresse no outro lado da avenida ou na frente dos imóveis vizinhos não chamava sua atenção, nem que fosse um elefante ao lado de um bebum fantasiado de cigano.

Desacorçoado, Serginho sentou-se num dos poucos bancos da imitação de praça que havia entre a Rua da Paz e a Américo Brasiliense e mergulhou em pensamentos. Se estivesse “bom de grana”, compraria um jornal para tentar se distrair. Quem sabe se parando de pensar no elefante não lhe viria uma boa idéia para encontrar uma testemunha. Talvez estivesse fechando demais o foco no local. De onde o elefante poderia ter vindo? Se descobrisse, iria até lá e perguntaria ao domador alcoólico.
Serginho varreu de memória todos os terrenos em que se armavam circos nas redondezas, mas não havia circo nenhum. Só se não fosse um circo. Talvez o domador fosse um cigano de verdade, daqueles que acampavam perto da ponte do Socorro, ou da João Dias. Talvez o elefante fosse do cigano, do acampamento. Tinha de confirmar isso.
Gastou três passagens de ônibus: uma até a ponte João Dias, outra de volta ao Largo 13 e mais uma até a ponte do Socorro. Nada. Nem sinal dos ciganos. Não havia acampamento, nem sinal de que tivesse havido algum recentemente. O mato estava alto, sem marcas de fogueiras. Serginho enfureceu-se consigo mesmo: “Para que os ciganos iam querer um elefante? Ciganos andam de carro, de caminhão. Vão arrumar um elefante para ter de ficar levando o bicho para cima e para baixo de carona? A troco de quê? Eles não são burros, eu é que sou! Gastei três passagens à toa.”

Estava quase desistindo, pensando voltar para casa, quando se lembrou que o elefante havia tentado entrar num bar. As pessoas que estavam lá o assustaram. O dono do bar devia ter visto alguma coisa.

Mais um ônibus para voltar à avenida Santo Amaro, eufórico com a possibilidade de finalmente encontrar uma testemunha. Desceu num ponto próximo e apressou o passo em direção ao boteco, mas não entrou. Era hora do almoço e o estabelecimento estava cheio. Temia fazer a pergunta sinistra e despertar o riso malvado da freguesia. Tinha de falar com o dono do bar, mas de um modo mais privado. Esperaria até que o movimento caísse. A angústia da espera é muito pior quando se tem fome. A grana curta, porém, pedia moderação. Não queria gastar seu minguado dinheirinho almoçando em outro bar, porque teria de fazer uma despesa para conquistar a boa vontade do homem do balcão. Tinha de esperar com fome. Depois que o movimento do almoço terminasse, provavelmente o dono do bar estaria ocupado durante algum tempo, botando ordem na bagunça, e não estaria disposto a manter uma conversa leve sobre elefantes. A melhor estratégia era chegar depois das duas ou duas e meia da tarde. Tinha de esperar a hora certa. E esperou.

Olhava para o relógio a intervalos de menos de cinco minutos, mas não entrou no bar até as duas e meia. Quando pisou na soleira, achou que devia dar mais um tempinho. Mais uma hora, talvez, mas já estava lá, portanto ia ser agora mesmo. Decisão. Foco e decisão. Ah, sim! O engenheiro Ricardo teria se orgulhado dele. Aquele filho da puta do engenheiro Ricardo, que ia demiti-lo por ter visto um elefante. Sentou-se, pediu uma coxinha e meia cerveja:

– Tem um molhinho de pimenta?

– Mas é claro! – respondeu alegremente o homem, colocando o vidrinho na frente de Sérgio.

Ótimo, o homem estava bem humorado. O movimento do almoço devia ter sido bom. Serginho optou pela abordagem indireta:

– É verdade que tinha um elefante aí na avenida ontem?

– Ah, é?

– O senhor não viu?

– Não...

– Me disseram que ele quase entrou aqui no bar.

– Entra muita gente aqui no bar, graças a Deus – disse o homem, fazendo o sinal da cruz.

– Elefante não, né?

– É, elefante eu nunca vi – confirmou, rindo.

Foi nesse momento que Ativo Fixo interveio:

– Eu vi o olifante.

Como o dono do bar tivesse espantado a única testemunha do acontecimento, Serginho engoliu o restante da coxinha, secou o copo de cerveja, pagou e saiu. Precisava encontrar Ativo Fixo. Alcançou-o com facilidade e o convidou para conversar um pouco num outro bar, um pouco mais adiante. Sentaram-se numa mesinha e Serginho pediu:

– Vê uma loira gelada aí para a gente.

– E um quebra-gelo – completou Ativo Fixo.

O botequineiro colocou dois copinhos de cachaça sobre a mesa.

– O quebra-gelo era só um – disse Serginho olhando para o garçom.

– Não, não – disse Ativo – pode deixar os dois.

Antes que o sujeito voltasse com a cerveja, Ativo Fixo já havia entornado os dois martelinhos de pinga. Quando a loira gelada chegou, Serginho fez questão de servir ele mesmo. Enquanto colocava o precioso líquido no copo de Ativo, perguntou:

– Então, seu Ativo, o senhor viu o elefante ontem?

– É. O olifante. Eu vi.

– Grandão o bicho, né?

– Grande, muito grande. Um rabo muito grande.

Serginho sorriu, imaginando que o bêbado devia achar que a tromba do elefante fosse o rabo do bicho. Conhecia uma piada assim, sobre uma velhinha que telefonou para o delegado dizendo que tinha um porco enorme com dois rabos na horta dela. Era elefante que tinha fugido do circo, como o delegado pensou. E a velhinha descrevia o que o porcão estava fazendo: “ele pegou um pé de alface com o rabo e... ai que horror, seu delegado!”

Ele não queria ter lembrado da piada. Tinha de se concentrar no elefante da véspera. Foco, garoto, foco. “Filho da puta”, pensava Serginho. “Vou levar o bebum lá e o filho da puta vai enfiar bilhete azul no foco!” Foco, Serginho!

– Fala mais do elefante, seu Ativo.

– O olifante. Muito grande. Rabo grande, boca grande. Muito grande e muito forte, o olifante, rapaz. Eu vi.

– Você viu o estrago que ele fez no Passat.

– É, ha ha ha. Ele fez um estrago num Passat, rapaz! Tinha que ver!

– E depois ele foi embora?

– É. Depois ele foi embora.

– O senhor viu para onde ele foi?

– Para onde ele foi?

– Não sei. O senhor viu mesmo, né?

– Claro, rapaz! Não te falei que eu vi? Pois então eu vi.

– Não, é que ninguém daqui de perto viu.

– Chhhh! – fez Ativo com o indicador na frente da boca. E quase cochichando:

– Claro que eles viram! Todo mundo viu. Só não podem falar. Se disserem que viram o elefante, os outros vão falar que eles estavam bêbados. Ou que são loucos! Foi a mesma coisa quando São Jorge passou voando aí na praça, montado no dragão.

Celso Paraguaçu
É jornalista e assina o blogue Meia Sola. http://meia-sola.blogspot.com

Ilustração: Hulikko (www.harhakuva.orgview119871 / hulikko1@hotmail.com)