Um elefante, dois bêbados e uma carreira que foi para o espaço Ilustração: Hulikko

– Eu vi o olifante.

Serginho girou tão depressa no banquinho do balcão que quase caiu. A mão firme do dono do bar segurou-o pelo ombro. O homem girou-o de volta e disse:

– Não dá bola não. Esse aí vê de tudo. – disse o botequineiro com um leve sotaque de Trás-os-Montes.

Serginho queria ouvir o que o sujeito tinha a dizer, mas o homem do balcão explicou, enquanto passava o pano úmido sobre o mármore:

– Esse aí é o Ativo Fixo. O pessoal dos escritórios que vem tomar uma no fim da tarde deu esse apelido. Eles dizem que ele faz parte do equipamento do bar. Alguns conversam com ele, brincam, pagam uma pinga e fica por isso mesmo. Ele faz qualquer coisa para começar uma conversa e pedir ao outro que lhe pague uma dose para molhar as palavras.

Como Serginho ainda parecesse disposto a ouvir o etilista, o dono do bar empunhou sua autoridade de proprietário e levantou a voz em direção ao bebum da casa:

– Vai dormir, ó Ativo, e deixa o freguês em paz. Volta mais tarde, quando o pessoal dos escritórios chegar.

O bêbado levantou-se lentamente, resmungando, e sumiu de vista.

– Onde ele dorme? – perguntou Serginho.

– Agora não sei. De noite é por aí. Costuma aparecer depois do almoço e vai ficando até a hora de fechar. Às vezes me pede para dormir aqui dentro, mas não deixo. Isto não é albergue de bêbado. Acho que ele dorme no albergue da prefeitura. Tem um perto do Largo 13, deve ser lá. Quando comprei o bar ele já fazia parte da paisagem, vinha todas as tardes. Nos primeiros dias, tentei afastá-lo, mas depois percebi que os fregueses da noitinha gostam dele, fazem piadas, brincadeiras. Se divertem, ele e o pessoal. E é bom para o negócio.

– Ninguém faz maldades com ele?

– Não! São só brincadeiras, piadas, coisas que as pessoas que trabalham em escritório precisam fazer para aliviar a tensão. Eu tenho um acordo com o Ativo, que ele nunca descumpriu: pode freqüentar a casa, mas não pode falar palavrões nem fazer gracejos para as mulheres que entram no bar ou passam na calçada. Não está no acordo, mas também não gosto que ele venha conversar com fregueses novos.

– É, deu para notar.

– Tem gente que pode até se assustar.

– Ele não parece assustador.

– É, mas sabe como é... Tem gente que não gosta.

– Bem, vou andando.

– Não quer tomar mais uma cervejinha?

– Não, preciso ir mesmo.

– Volte sempre, a casa é sua. E olha, se tivesse visto o elefante, eu falava. Mas não vi mesmo.

Serginho não dormira bem. Sonhava com o elefante, com o chefe, com os colegas rindo dele, com o eventual bilhete azul. Na hora que a coisa aconteceu, foi até divertido. Mas quando teve de explicar na empresa o motivo do atraso, o mundo veio abaixo.

O engenheiro Ricardo, o chefe, estava esperando por ele na porta. Dizia que o cliente já tinha ligado duas vezes para saber das condições do instrumento que mandara consertar e Sérgio ainda não tinha chegado à empresa com o aparelho pifado. O tempo de demora seria suficiente para os técnicos saberem o que havia de errado com o equipamento, talvez até para consertar.

Enquanto Serginho abria o porta-malas para pegar o aparelho do cliente, o chefe continuava expondo o motivo de sua irritação:

– O cara nem pediu o orçamento, só quer saber se dá para a gente consertar ainda hoje. E nós ainda nem vimos a cara do equipamento! E esse é o único no Brasil. Não tem como emprestar outro para o cara ir trabalhando enquanto consertamos esse. É único. Vem da Rússia, leva mais de um ano para se conseguir importar um troço desses. Que aconteceu para você demorar tanto?

– É que tinha um elefante na Av. Santo Amaro e o trânsito...

– Elefante? Na Santo Amaro?

O espanto de Ricardo fez com que falasse tão alto que até os técnicos das bancadas levantaram os olhos para ver o que acontecia. Sem falar dos caras da aferição, da Dona Ondina, secretária, do cara da contabilidade, da recepcionista. Até dona Neusa, que fazia café e faxina, olhou assustada. Um elefante na Santo Amaro deixa todo mundo curioso.

Serginho também ficara curioso quando viu o bicho, da mesma forma que os outros motoristas. O trânsito parou, lá pelas duas da tarde, horário em que dificilmente havia congestionamento naquele tempo. Serginho tentou ver alguma coisa, mas só enxergava uma aglomeração a alguma distância.

Devia ser uma batida, o que se resolvia facilmente, a menos que houvesse agressão física. Aí viria a polícia, com poder para baixar o cacete em ambas as partes. E até de levar os motoristas para a delegacia, deixando os carros batidos atrapalhando o trânsito. Não havia nada que Serginho pudesse fazer. Era esperar e relaxar, ouvindo Led Zeppelin no toca-fitas. Naquele tempo, 1985, ouvir Led Zeppelin no toca-fitas era a melhor coisa que se podia fazer. Hoje há coisas muito melhores, como ouvir Led Zeppelin num tocador de MP3.

Serginho observou que muitos motoristas começavam a sair dos carros, olhando para os lados da aglomeração. Ele também saiu e então viu o elefante. Cinza, enorme, cheio de rugas e de barro, parado ali na Avenida Santo Amaro, na contramão, balançando a tromba como se regesse uma valsa.

As pessoas se admiravam, apontavam, conversavam baixinho com medo de atrair a atenção do bicho, mas o animal não dava a mínima. Ao seu lado, uma espécie de domador tentava fustigá-lo com um ridículo chicotinho que nem fazia cócegas no paquiderme. As chicotadas indolentes denotavam uma ação meramente formal. Esperava-se que ele tivesse o bicho sob seu comando e era isso que, sem convicção, ele tentava demonstrar. Mas só o que ele demonstrava era o resultado do consumo excessivo de álcool. Para não cair, o domador encostava-se na perna do elefante e parecia se abanar com o chicotinho, ao açoitar impotentemente a barriga do trombudo. Vestia calças – o domador, não o elefante – que um dia foram brancas ou beges, botas surradas e sujas, um colete estampado diretamente sobre as costas sem camisa, e um lenço na cabeça. Serginho achou que era um traje cigano. Talvez fosse uma variação artística, para fugir da roupa tradicional dos domadores de circo, que imitava os uniformes safári dos caçadores brancos dos filmes da década de 1940.

Os motoristas, com os motores desligados já havia algum tempo, deleitavam-se com a inesperada presença. Um taxista exibia seu conhecimento do mundo animal com frases do tipo “os elefantes têm a melhor memória dentre os mamíferos: nunca esquecem” ou “para matar um elefante é preciso atirar em seus olhos, pois não existe bala capaz de perfurar seu couro”. A maioria discutia o peso do bicho. Na média das opiniões, passaria de duas toneladas, talvez até mesmo de três. Serginho olhava de longe, ouvia os comentários, mas não falava nada. Só pensava na força que um animal daquele tamanho devia ter.

E o elefante, como se ouvisse os pensamentos de Serginho – capacidade até o momento não confirmada pela Ciência –, exibiu seu potencial destrutivo. Fez um quarto de volta, no sentido horário, para quem olhasse de cima, e encostou a enorme bunda num Passat estacionado. Foi praticamente um esbarrão, mas causou substancial dano à lataria do carro. Aí o espetáculo mudou de figura. Com a burguesia é assim: vai tudo bem, desde que não mexam no patrimônio. E o bicho amassou um carro, justamente o mais significativo símbolo do status burguês. Tornou-se imediatamente inimigo de todos os proprietários de carros que viam a cena. Um deles tomou o chicotinho da mão do domador e começou a bater na cara do elefante, como quem repreende um cachorro que mastigou um chinelo. Os demais se dividiram em três grupos. Uns corriam para seus carros, outros corriam para longe do elefante e o terceiro grupo corria em direção do bicho, agitando os braços para afugentá-lo. A estratégia do último grupo funcionou. O elefante completou a meia volta que havia começado, alinhou-se no sentido correto do trânsito e foi-se embora. Ainda tentou entrar num bar, para se esconder da turba, mas as pessoas que tinham se abrigado no boteco perceberam que o bicho tinha medo de gente e o enxotaram sem dificuldade, apenas gesticulando e gritando. O elefante seguiu seu caminho em direção ao Largo 13 e sumiu de vista. Sem elefante, as coisas foram voltando ao normal.

O trânsito começou a fluir. Serginho entrou no carro, virou a fita do Led Zeppelin que tinha acabado, e rumou para a empresa. Estava feliz, nem tinha percebido quanto tempo ficara entretido com o elefante. Foi a primeira vez que o trânsito atravancado não o deixou irritado. Por isso assustou-se com a irritação do chefe, que esperava por ele na portaria. “Faz mais de uma hora que estou esperando você chegar”, disse Ricardo, zangado. Serginho olhou para o relógio, constatando um atraso de quase duas horas.
Tinha de haver uma boa explicação para a demora. A presença de um elefante na avenida Santo Amaro, porém, não se enquadrava nessa categoria. Era verdade, mas... O chefe olhou sério para Serginho e saiu empurrando o carrinho com o equipamento que tinha de ser consertado. Não tinha tempo para conversar agora. Nem perguntou a Serginho qual era o defeito reclamado pelo cliente.

Serginho fechou o carro e foi para junto dos colegas, que queriam saber que conversa era aquela de elefante na Santo Amaro. Serginho, preocupado com a atitude do chefe, explicou por alto. E se arrependeu imediatamente. A moçada riu, fez gracinhas, e ninguém acreditou. Até que o Guinão, um sujeito sério que Serginho respeitava, falou:

– Meu, você podia dizer que furou um pneu, que o motor morreu e precisou esperar que esfriasse para ligar de novo, ou podia inventar alguma coisa heróica, como socorrer um velhinho que caiu na calçada, levar uma mulher grávida para a maternidade... Tinha de inventar uma porra-louquice dessas? Vá ver a namorada durante o expediente, vá almoçar com ela, mas não invente desculpas malucas não, cara. Isso pode prejudicar sua carreira.

– Mas eu não inventei, Guinão! Tinha um elefante mesmo!

– Ah, Serginho...

Até aquele momento, Serginho temia que algo pudesse prejudicar sua carreira. Gostava do trabalho e ia gostar ainda mais quando se tornasse um técnico. Ele tinha até uma promessa de Ricardo. Ficaria alguns meses no atendimento, retirando e entregando os equipamentos dos clientes, e depois aprenderia a consertar e aferir os instrumentos de precisão. Ter a carreira prejudicada pelo elefante não era nada bom. Foi quando chegou o cara da contabilidade com a má notícia:

– Gancho, Sérgio. O Dr. Ricardo falou para você ficar em casa nos próximos três dias, enquanto ele vai pensar no que vai fazer com você.

A má notícia foi concluída com um gesto inusitado do cara da contabilidade, que saiu com a dobra do braço direito encostada no nariz enquanto balançava o antebraço como se fosse uma tromba. Para completar, um dos colegas imitava o bramido de um elefante.
Serginho ficou tão emputecido com os colegas e com a decisão do chefe, que resolveu ir embora imediatamente. Foi para o vestiário para tirar o macacão de serviço e sua raiva aumentou. Alguém tinha pendurado na porta de seu armário um cabide com um guarda-pó cinza dobrado e grampeado para ficar com a forma da cara de um elefante. Uma das mangas ficava escondida e a outra bem no centro do origami, como se fosse uma tromba. Bonito trabalho, completado com olhos desenhados a giz. Mas Serginho não gostou. Atirou longe o cabide, trocou de roupa, pegou tudo que tinha no armário e largou a porta aberta, como se nunca mais fosse voltar à empresa. Naquele momento, era isso mesmo que pretendia. Nunca mais queria ver a cara daquelas pessoas que não acreditavam que ele tinha visto o elefante. Ora, quem nunca viu um elefante numa avenida? ... Tinha de admitir que não era uma cena muito comum. Se fosse um elefante acompanhado de um palhaço, um malabarista, um sujeito num monociclo, tudo junto, ainda vai. Seria uma parada de circo, anunciando o espetáculo daquela noite. Mas um elefante sozinho... Sozinho, não. Tinha um domador cigano com ele. Bêbado. Talvez nem fosse domador. Nem cigano. Era apenas um bêbado fantasiado de cigano ao lado de um elefante. Na avenida Santo Amaro. Não era mesmo muito fácil de acreditar. Nem para quem viu.

Serginho, no ônibus de volta para casa, começava a duvidar de ter presenciado a inusitada cena. Pensava na feijoada que havia comido no almoço. Não era uma grande feijoada, mas feijoada é como sexo: mesmo quando é ruim é bom. Talvez não devesse ter tomado a segunda caipirinha de barriga vazia, antes do rango, mas estava boa e era de graça, fazia parte da feijoada, ele tinha de aproveitar. Não, não podia ser a caipirinha. Serginho se entendia bem com as bebidas fortes. Uma caipirinha não fazia mal para ninguém. Duas também não, já que duas vezes zero é zero. Talvez fosse alguma coisa no tempero da feijoada. Serginho tinha ouvido falar de bolo de maconha, docinhos com sementes de papoula, chá de lírio, cogumelo com leite condensado e outras especialidades da culinária bicho-grilo, mas sempre achou que feijoada fosse uma comida careta, que precisava da caipirinha antes para dar algum barato. Talvez estivesse enganado. Pode ser que aquela couve refogada contivesse outras ervas ou o feijão tenha sido cozido com raízes baratinantes. Até mesmo uns pedaços de cogumelos passariam despercebidos, em meio a tantas extremidades suínas que vinham no feijão – focinho, rabo, orelhas, pés.

Tinha de ser isso. Foi alguma coisa que ele comeu. Podia até ser algum inseto alucinógeno que se suicidara no caldeirão. Um elefante na avenida Santo Amaro era difícil de acreditar, mesmo para quem tinha visto. Ou pensava ter visto. E a dúvida foi crescendo e tomando conta dos pensamentos de Serginho, que por fim tomou a decisão: no dia seguinte voltaria ao local onde pretensamente se dera o fato e o confirmaria ou não. Se houvesse testemunhas, podia até conseguir um depoimento favorável para depor em seu favor junto ao patrão. Poderia até evitar o bilhete azul. Não, já não queria evitar o bilhete azul. A empresa que fosse para o inferno. Ele só precisava saber para si próprio se vira ou não o elefante.