A Patife Band não se encaixava. Talvez uma das dificuldades fosse essa, não há como rotular o som da banda. 

Não tem como rotular. Tinha o medo deles por ser uma coisa diferenciada de tudo o que estava rolando, poderia não dar certo. Justamente por isso acho que teria acontecido, poderia ter rolado, mas não sei que estratégia eles usaram. Resolveram investir no que tava rolando e ficaram esperando de repente pra investir na Patife mais tarde. Depois acabei me desentendendo com a WEA, nem sei porquê ao certo, os caras começaram achar...Ah, eu sei porque: teve um produtor lá da gravadora, um cara que fazia televisão, que chegou pra mim e disse “cê viu o que tá tocando no Chacrinha, no fundo, pras dançarinas coreografarem?” (risos). O carinha que era o DJ do programa tava colocando “Chapeuzinho Vermelho” pra tocar. 

 Ele chamou a banda pra se apresentar no Chacrinha? (risos)

Não, se fosse no Chacrinha eu até me apresentaria. Ele falou “nem que for pra dublar, fazer playback eu quero levar vocês no programa da Xuxa” (risos). Eu falei “caralho, não concordo, se for pra ir à Xuxa, eu não vou! Acho que ela é uma exploradora”. Aí eu fiquei com fama de intransigente, de fresco, “pô o cara não quer colaborar”. A única coisa que tive animosidade dentro da WEA foi com isso. Não tive nenhum confronto com ninguém. Acho que o efeito foi ficando grande, as coisas foram aumentando, aquele papo de fofoca. Começaram inventar um monte de coisa, que eu era uma pessoa difícil. Enfim, meu contrato com gravadora se encerrou e, graças a Deus, eles não me chamaram pra fazer um segundo disco, por que seria uma porcaria! Eu não estava preparado pra fazer, se eu seguisse carreira lá na WEA, depois de 1 ano teria que fazer outro e sairia uma porcaria porque meu trabalho é um trabalho em que demoro 10 anos pra fazer um disco. Hoje em dia preciso de menos tempo, mas naquela época ainda não havia depurado muita coisa. Meu processo de criação era bem lento. Ainda bem que isso aconteceu, se ficasse lá, gravaria um disco que seria uma porcaria!

 Como é seu processo de criação?  Você compõe no piano?

Componho no piano.  O Corredor eu compus praticamente todo no violão, mas usei piano também. Às vezes tenho uma ideia rítmica, uma célula, aí começo a desenvolver essa célula e fico pensando numa linha de baixo, fico pensando em linha de guitarra e vou construindo. No caso de meu trabalho atual que estou preparando é tudo em cima de um teclado, eu compus procurando células atonais, estou desenvolvendo, encaixando. Estou fazendo todo aquele processo de descobrir, ir descobrindo e inventando, em cima do teclado, trabalhando, pegando um negócio pesado mesmo.   

 Quando você dá um trabalho por encerrado, onde você diz “agora está pronto, parei, não mexo mais”? Chega uma hora em que não dá pra mexer mais?

Chega sim, é quando fico satisfeito, sei lá. Por exemplo, “Tudo Claro” que é uma música inédita, tem várias outras, “Ready to Die” que eu também vou gravar, não dá pra mexer mais, tão prontas.

 Ouvindo as novas músicas, percebi uma tendência das letras estarem mais curtas, investindo na repetição, como é o caso de “Ready to Die”, ou mesmo em músicas como “The Big Stomach”, onde há praticamente apenas grunhidos. Você está indo pra uma linha mais experimental na questão do texto também?

Em “Ready to Die” eu não terminei a letra ainda, em “The Big Stomach” a ideia é fazer um mantra. Ficar repetindo o big, big, big stomach... (cantarola um trecho) a música inteira.

 Pra finalizar, sei que é um assunto meio batido, contudo ainda relevante. Atualmente estamos assistindo à crise da indústria fonográfica ao mesmo tempo em que a internet se tornou o grande difusor de conteúdo musical. O que você pensa a respeito da música ser veiculada pela internet? 

 Eu não acho nada, Sandro. Pra falar a verdade, não estou nem aí. Não sei se é irresponsabilidade minha pensar desse jeito. Acho que quando você faz um trabalho em que você chegou num resultado legal, você acaba achando um jeito de espalhar isso, entendeu?  Principalmente com a Patife, que já tem uma história. Não estou nem aí pra indústria fonográfica, pra internet. Sei que a internet é um instrumento legal pra divulgar, claro, mas eu não penso nisso cara. Não tenho preocupação com isso. Pra mim a música sempre vai ser ao vivo, o forte da música é ao vivo. É tocar em teatro, não é casa noturna não. Tocar em casa noturna é um pé no saco, você ganha pouco e começa a tocar lá pelas 3 horas da manhã e vai dormir às 5! (risos) Acho que o lance da música, nunca, jamais vai deixar de ser ao vivo. Tocar mesmo, ter o contato, o cara ir ao show, ver. Essa nova geração não tem acesso nem ao CD, que é um lance que gosto muito, o vinil também. Acho que como diz o Calanca [Luiz Calanca, dono da loja de discos e selo Baratos Afins, defensor da existência do vinil], vai chegar um dia que não existirá mais lojas de discos, acho uma pena.  A internet é muito legal, mas acho que não dá pra reproduzir fielmente uma apresentação ao vivo, aquilo de ir assistir ao show de uma banda, que acho que nunca, jamais será superado. Acredito nisso, tomara que eu esteja certo.

DISCOGRAFIA PATIFE BAND


Patife Band (1985)

Corredor Polonês (1987)

Ao Vivo (2003) – s/ lançamento oficial

Cidade Oculta – trilha sonora (1985)

The Sexual Life of the Savages – coletânea (2005)
 

PATIFE BAND NO MYSPACE
http://br.myspace.com/patifeband