Paulo  Barnabé: entrevista com um Patife

 PAULO BARNABÉ é o homem por trás da Patife Band. Seminal dos anos 80, a banda, que no início atendia pela alcunha de Paulo Patife Band, é na verdade um projeto de Paulinho, tendo tido diversas formações. Na ativa até hoje, sua sonoridade, criada em grande parte dentro do sistema atonal, mistura técnica de composição dodecafônica com punk rock, ritmos assimétricos com jazz, elementos de música brasileira com noise, fazendo um som inclassificável, difícil de rotular.  

 Sua curta discografia inclui o EP Patife Band, conhecido como “Patifinho”, gravado de maneira independente em 1985; Corredor Polonês, lançado pela WEA dois anos mais tarde e hoje considerado “clássico” com sua estética sonora em muitos aspectos ainda não superada por nada que se tenha feito no universo do rock e da música popular; Ao Vivo, registro de show gravado em 2003 no festival Demo Sul, circulou pelo underground sem edição definitiva; além de participações na trilha de Cidade Oculta, filme de Chico Botelho em que a Patife faz uma aparição, e na coletânea de bandas pós-punk de São Paulo The Sexual Life of the Savages, lançado pela inglesa Soul Jazz Records.   

Antes de criar a Patife Band, Paulinho fez parte da efervescente cena cultural de Londrina nos anos 70 e da eclosão da Vanguarda Paulista na década seguinte. Tocou na Sabor de Veneno, acompanhando seu irmão Arrigo Barnabé, com quem gravou Clara Crocodilo e Tubarões Voadores. Integrou também a Isca de Polícia de Itamar Assumpção, gravando o debut Beleléu, Leléu, Eu.

 Atualmente, Paulo Barnabé trabalha em material para um novo disco da Patife Band, com o título provisório de O Grande Estômago, devendo entrar em estúdio até o final do ano. Nesta entrevista, realizada no Centro Cultural São Paulo, onde no início da década de 80 se apresentou com a ópera João Bobo e as Bonecas Infláveis, Paulinho fala de sua trajetória, destacando suas referências musicais, seu processo de criação e sua inclinação por uma música extremamente inventiva e particularizada, carregando em seu cerne um inconformismo que se recusa a fazer parte do rebanho e de qualquer tentativa de massificação idiotizante, advindo daí uma insuspeita inadequação em relação a toda patifaria que tem movido a indústria cultural nos últimos anos. (Sandro Saraiva) 

 

Vamos começar falando de Londrina. Como se deu sua formação musical? O que ouvia na época?

Estudei piano clássico num conservatório musical lá em Londrina. Fiquei uns 3 ou 4 anos no conservatório, depois tive aula particular. Naquela época, década de 1960, era moda as famílias colocarem os filhos para estudar música. Na geração anterior à minha, era moda dentro da tradição da classe média paulistana, paranaense, colocar as mulheres, elas estudavam sanfona. Então meu pai colocou o Arrigo, eu e o meu irmão mais velho para estudar música. Eu e o Arrigo estudamos piano e meu outro irmão estudou violino. Depois disso, estudei violão no conservatório também, mas eu não entendia muito bem a harmonia, sempre tive muita dificuldade em entender a harmonia tradicional, nunca entrou muito na minha cabeça. Então tudo o que eu fazia, tudo o que eu fuçava no piano, nós tínhamos uma piano em casa, era baseado em efeitos, timbres, ficava curtindo os graves do piano (imita o som com a boca).

 Isso tudo veio naturalmente, você ainda não conhecia compositores como Schoenberg, Webern e Stockhausen?

Não, foi bem antes de eu conhecer, tinha uns 10 anos de idade. Era moleque ainda. Música clássica, naquela época, era muito bitolada. Eu decorava tudo. Não tinha entendimento de harmonia direito. O que acontece na verdade é o seguinte: eu nunca entendi música do jeito tradicional, sempre fiz música de acordo com a minha necessidade de inventar. Tudo o que eu fiz de música foi dentro de uma criatividade particular. Uma das primeiras músicas que fiz, foi     “Peiote”, um baião serial..

...Essa música entrou no “Patifinho”, primeiro EP da Patife.

Entrou. Acabou entrando nem sei porque. Acho que precisava de uma faixa a mais e acabei colocando.  Naquela época eu estava começando a fazer o meu som e tinha pouco repertório, e então, aprontei estas cinco músicas. Para virar um EP, me disseram que tinha que ter seis músicas, por isso eu coloquei “Peiote”.

Depois veio uma fase nossa em Londrina em que o Arrigo começou a receber material da Europa, ele tinha uma namorada chamada Marta Furtado, que conhecia um pianista famoso. Acho que se chamava Marcos de Almeida, sei lá, um cara muito bom.  A Marta passou para o Arrigo... não sei muito bem como foi a história, não sei como o Arrigo diria isso, só sei que comecei a ter acesso a um material mais de vanguarda, de música erudita. Na época, tinha uns quinze anos, por aí. E aí tinha aquela coisa de música aleatória, a gente ficava ouvindo... o Arrigo falava pra mim que era tudo escrito, não era nada ao acaso, porque parece meio que o cara joga alguma coisa no chão e dali tira um som. Não, era tudo escrito, eu achava super louco.

 Paralelamente a isso tudo, eu ouvia o rock da Jovem Guarda, ouvia MPB. Ouvia, por meio de meu pai, coisas como Nelson Gonçalves, o pessoal da antiga. Descobri também a Bossa Nova, assistia na televisão. Gostava daquela síncope, do barulho do aro, aquilo me atraía muito. Comecei a ouvir Zimbo Trio, Tamba Trio... Gostava dos caras da música instrumental brasileira, achava fudidaço.  Na verdade, eu não conseguia entender em termos musicais, gostava do resultado. Sempre procurei experimentar, então nunca entendi muito bem esse lance da Bossa Nova. Só recentemente, há pouco tempo, uns dez anos, é que fui começar a comprar métodos pra poder entender harmonia. Acho muito difícil, muito complicado. Acabei desistindo, não tenho muito saco. Então foco mesmo minhas composições numa maneira muito particular, no atonalismo que é natural pra mim. Muita gente fala que você tem de superar toda a fase da música tradicional para chegar ao atonalismo, eu caí direto no sistema atonal, acabei compondo em cima disso.

 Mas posteriormente você ouviu compositores de música erudita contemporânea...

Ouvi pouca coisa. Lembro que ouvi Boulez, principalmente Le Marteau sans Maître, uma orquestração. Achei fantástico! Um absurdo! Uma orquestração louca, parecia que era tudo jogado, a orquestração, a composição dele. Falei “nossa, que coisa doida que é isso!”. Isso me marcou muito. Penderecki, eu desbundava ouvindo Penderecki, achava uma coisa doidíssima. Tinha outro compositor que ouvia assim, pegando do meu irmão, - mas eu descobria minhas sensações, minhas impressões... ia curtindo...ia vendo - o Matsudaira, o japonês. Aí eu entrei de cabeça nesse universo. Ao mesmo tempo em que ouvia Jovem Guarda, Bossa Nova, Jimi Hendrix, Beatles, Janis Joplin, naquela fase Woodstock, eu ouvia música erudita. Mas não tive formação erudita.

 Você ouviu o Pierrot Lunaire do Schoenberg? Nos discos da Patife Band, também nos discos do Arrigo, tem aquele lance do Sprechgesang (canto falado), que vem do Schoenberg...

Vem. Eu vi uma apresentação na época no teatro do MASP, havia uma programação de música instrumental e música erudita lá no final dos anos 70, começo dos 80, tinha bastante coisa. Era louco, umas programações muito legais, tinha Música Cênica, que era aquela coisa do John Cage, a gente foi muito influenciado pela Música Cênica. Um argentino, que estudou na Musikhochschule, escola na Alemanha aonde cheguei a estudar, que nos mostrou pela primeira vez.

 Era em Colônia, não? A Musikhochschule de Colônia era onde ficava o estúdio em que Stockhausen trabalhou, o Studio für elektronische Musik des WDR...

O Stockhausen lecionava lá. Fiquei umas três semanas. Ali era a elite, a nata. Lembro de ter assistido a uma palestra do Messiaen no auditório, vi uma apresentação, um concerto só para piano. Putz, era um nível muito alto. Tinha o pessoal da música erudita e do outro lado do prédio da Musikhochschule, você ia pro jazz. Depois que terminava a aula de percussão erudita do Christoph Caskel, por exemplo, saía e ia tocar bateria, ia tocar jazz.

 O problema é que nessa época o Arrigo tava bem bombado com Clara Crocodilo e a gente foi tocar no Jazz Fest Berlin no teatrão lá, Karajan acho, esqueci o nome daquele teatro. Era uma noite brasileira e a gente foi se apresentar com outros músicos e tal. Fomos com a base daqui e nos juntamos com quatro metais e duas vocalistas inglesas. Eles ensaiaram a parte deles, que o Arrigo havia enviado, e lá nós fizemos dois ensaios na sala do próprio teatro. Foi uma apresentação magnífica, muito legal.

 Eu já estava com o propósito de ficar lá para estudar na Musikhochschule, peguei o trem com um amigo meu que morava em Düsseldorf, que é do lado, então eu ficava em Colônia e ia pra Düsseldorf, encontrei com Christoph Caskel, comecei a ter aula, etc. Aí aconteceu que o Arrigo tinha aberto uma temporada aqui no Brasil e me chamou...