Em sua opinião, qual a importância do texto dentro de uma montagem?

É fundamental.

Charutos, Olhos Azuis num Retrato Branco e Preto, Aos Ossos que Tanto Doem no Inverno são alguns de seus textos que foram encenados. Quais são seus critérios de escolha? Como é sua relação com a direção, os atores e a montagem em geral? O resultado final geralmente te agrada?
Não há critérios de escolha em relação aos textos: termino de escrever e já quero encená-los, embora nunca aconteça com tamanha rapidez. Tenho uma relação muito tranquila e cordial com direção e atores. Ligo e convido todo mundo que já havia escolhido ainda enquanto escrevia. E a base pra essa escolha é a admiração. Sem admiração não dá. Talvez por essa razão que até agora os resultados tenham me agradado plenamente. Claro que já me desentendi com ator, com produtor, mas tenho total consciência de que a partir do primeiro ensaio a coisa passa a ser mais deles do que minha, pois já não estamos falando de um texto, e sim de algo muito maior mas que só pode ser alcançado se todos seguirem o que está no papel.

(...) não há nada mais gratificante do que confrontar a imagem do público reagindo a um espetáculo seu – ou um leitor, a um poema – com a de tudo começando: eu de cueca na frente do computador.

Como vê a cena teatral hoje no Brasil? Quais as dificuldades pra se montar um texto?
Creio que em São Paulo pega fogo, no Rio, bem menos, e o resto do Brasil segue fazendo figa. A dificuldade para se montar um texto está ligada exclusivamente à boa e velha grana. Não vejo outra.

Existe uma lacuna editorial no que diz respeito à publicação de textos teatrais. Quando se trata de jovens autores, parece que a coisa fica mais complicada ainda, são raras as editoras que aceitam correr o risco. De quais estratégias um dramaturgo deve lançar mão para que seu texto seja lido e encenado? 

De estratégia alguma. Claro que seria ótimo pra um autor – em termos de venda e divulgação, não só como prova de que o que escreveu realmente lhe pertence – ter suas peças publicadas em livros, se acaso houvesse uma editora brasileira de porte considerável (leia-se boa distribuição) interessada, o que não acontece.      

Pra finalizar, o que significa para um autor se expressar por meio da poesia e do teatro, linguagens historicamente marginalizadas dentro da produção cultural no Brasil?

Muito natural, pois não conheço o outro lado, o do sucesso popular. E se um dia vier a conhecer, esteja certo de que há algo de muito errado com o que ando escrevendo e, consequentemente, comigo; tendo em vista o que atrai o grande público. Sou louco pelo que faço. É o que me foi atribuído. Portanto, não tenho do que reclamar. Pelo contrário, posso lhe garantir que não há nada mais gratificante do que confrontar a imagem do público reagindo a um espetáculo seu – ou um leitor, a um poema – com a de tudo começando: eu de cueca na frente do computador.

Duas Peças de Sergio Mello

Olhos azuis num retrato branco e preto é um texto curto em homenagem a Paul Newman. Foi exibido no Satyrianas 2008, a convite do grupo de teatro Os Satyros, com os atores Cacá Amaral e Eucir de Souza no elenco, sob a direção de Soledad Yunge. Mostra o encontro entre um dramaturgo iniciante e promissor e um ator veterano e esquecido. Há um momento em que um dos personagens diz “Subitamente você descobre que vai passar a sua vida inteira em desordem” (Erin Moure, poeta canadense). Acho que este verso define bem tanto os personagens quanto o clima do espetáculo, que trata de autodestruição. (Sergio Mello)


foto: Edson Kumasaka

Eucir de Souza e Cacá Amaral durante ensaio de Olhos Azuis

RAPAZ: Antes de sair de casa pra vir pra cá, eu tava vendo na tevê uma reportagem sobre a morte do Paul Newman... Paul Newman foi o melhor argumento que pervertidos como eu tiveram, sabia? O melhor de todos os argumentos... A beleza dele era tanta que deu à pederastia, que até então era vista como safadeza, um fundamento. Cê entende o que eu tô falando?

SENHOR: Você tá bêbado.

RAPAZ: É estranho saber que aqueles olhos de um azul que resistia até a fotografias branco e preto, que eram capazes de fazer os mais desatentos decretarem a falência de suas almas, é estranho saber que eles pertencem agora a meros obituários... Eu não tô bêbado, não... Eu só acordei um pouco mais triste hoje.

(Pausa.)

SENHOR: Acho melhor você procurar outro ator pro seu espetáculo.

RAPAZ: Quê?

SENHOR: É, eu não vou poder mais fazer.

RAPAZ: Vai fazer, sim. Como não?

SENHOR: Rapaz, você não pode me obrigar.
RAPAZ: Posso, sim. Vai fazer. Cê vai fazer essa porra...

SENHOR: Eu tô indo embora. Eu vou embora de São Paulo...

RAPAZ: Por quê?

SENHOR: Talvez um emprego de caseiro em algum sítio. Ficar em silêncio. Trabalhar com a terra até minhas mãos ficarem hostis... Essas coisas...

RAPAZ: “Subitamente você descobre que vai passar sua vida inteira em desordem”... Conhece esse verso? É de uma poeta canadense... Como eu queria ter escrito essa porra...