Explicando a morte para crianças de seis anos é a minha segunda peça. Talvez a mais rock’n’roll de todas. Em ritmo e tensão. Os personagens são jovens. Tenho uma certa dificuldade para compor personagens jovens, soam-me falsos o tempo todo.  Mas não esses. O texto já teve leitura pública no auditório do Masp e provocou reações adversas. Fala sobre a famigerada perda da inocência, sobre a injeção de idade adulta que as crianças recebem quando passam por uma tragédia cedo demais. (Sergio Mello)

ELE 1: Cê sabe, pra escrever. Não tem que ler bastante pra escrever? Minha professora do primário que falava isso.

ELE 2: Pode ser... mas não acho que seja o mais importante, não.

ELE 1: E o que que é, então?

ELE 2: Quer um conselho, cara? Nem tenta. É bem melhor continuar com as suas lutinhas de esgrima remuneradas.

ELE 1: Vai se foder. Só fiz uma pergunta, pô.

(Pausa curta.)

ELE 2: Acho que cê tem que perder o medo, primeiro... É mais ou menos como pular de um lugar bem alto – o mais alto que cê conseguir imaginar...

ELE 1: Ah.

ELE 2: ... usando só uma sacolinha, saca?, dessas de supermercado, como pára-quedas...

ELE 1: Sei.

ELE 2: Aí depois...

ELE 1: Fica tudo mais fácil, né? Já entendi.

ELE 2: Não. Mais difícil.

ELE 1: Pode crer. Eu entendi.

ELE 2: Com as duas pernas quebradas fica tudo muito mais difícil.

ELE 1: Peraí, cara, do que cê ta falando?

ELE 2: Do salto, pô, só com a sacolinha de supermercado. Ou cê acha que...

ELE 1: É que eu pensei que a sacolinha era só uma-

ELE 2: Metáfora?