Sergio Mello - foto: Edson Kumasaka
foto: Edson Kumasaka

Nos mesmos moldes do Leitura Eletrônica, antigo projeto difundido em alguns dos primeiros números da revista, quando ela mais parecia um fanzinão eletrônico, a Etcetera volta a publicar livros em formato PDF. Inauguramos nesta edição, Download Dramaturgia, publicação de textos de teatro para baixar gratuitamente. A idéia é trazer à rede peças inéditas ou mesmo textos já encenados, privilegiando novos autores.

Para dar o ponta pé inicial, convidamos o poeta e dramaturgo Sergio Mello. Nascido em São Paulo em 1977, é autor do livro de poemas No Banheiro um Espelho Trincado e do inédito Savoy River. Escreveu para teatro Aos ossos que tanto doem no inverno, Temporada de caça, Summer, entre outras. Alguns de seus textos ganharam vida na pele de atores como Nelson Peres, Mário Bortolotto, Marcos Cesana e Paulo de Tharso.

Em Duas Peças de Sergio Mello apresentamos Olhos azuis num retrato branco e preto, texto curto em homenagem a Paul Newman, encenado em 2008 no Satyrianas, com direção de Soledad Yunge e com Eucir de Souza e Cacá Amaral no elenco, e o inédito Explicando a morte para crianças de seis anos, segunda peça do autor, escrita em 2006. A edição do livro, com link para download no final desta matéria, é da revista Etcetera e conta com fotos de Edson Kumasaka e ilustração de Carlos Carah. Acompanhe abaixo uma entrevista exclusiva com o dramaturgo. (Sandro Saraiva)

 

Quais são as suas principais referências enquanto dramaturgo?

Sam Shepard, Mário Bortolotto, David Mamet, Tennessee Williams, Tchekhov, Harold Pinter, Eugene O´Neill, Edward Albee, Beckett. Gostaria de citar também nomes com os quais tenho me identificado muito nos últimos tempos (apesar do pouco que tive de suas obras): David Harrover, John Kolvenbach, Patrick Marber, Jon Fosse e Maurício Arruda Mendonça.

Queria que você falasse de seu processo de criação, desde os primeiros estímulos que te fazem começar um texto até o momento em que o dá por acabado?

Sento-me pra escrever com algo procedente de inspiração. Um movimento ou fala, não mais que isso. Acho fundamental partir da sensação de “ângulo inusitado” que a inspiração provoca. As primeiras três, cinco páginas surgem relativamente fáceis. Mas logo vem o tormento do labor real: dúvidas, inseguranças, insatisfações. Com o tempo tenho percebido que trabalho mais a cada novo texto. E o motivo maior são os diálogos. Gosto de teatro com bons diálogos, que não funcionam apenas como ferramentas de avanço mas carregam alta carga de beleza ou bile, sem rebuscamento. Quanto ao término de um texto fecho com uma do filme Pollock, no momento que uma repórter da Life pergunta ao pintor quando ele sabe que terminou de pintar uma tela. “Quando você sabe que terminou de fazer amor?”, ele devolve. Não, não, este foi um pequeno exemplo de diálogo genial. Pra mim o encerramento de um texto tem sido cada vez mais associado à exaustão do que à satisfação.

O ser humano só é herói em mesa de bar, entrevista de emprego e quando quer levar alguém pra cama. O resto do tempo é um animal patético, melancólico e solitário que ri de si mesmo ao constatar que está realmente cercado, que não há saída

O que você busca e o que você rejeita na linguagem teatral?

Busco simplicidade e minimalismo. Sei que pode parecer contraditório falar em simplicidade, já que acabei de dizer que me preocupo tanto com diálogos, mas não é. Refiro-me ao simples não como sinônimo de fácil. Quem já leu Raymond Carver sabe exatamente do que estou falando. Simplicidade é um troço bem difícil de se atingir e muito maquiável hoje em dia. Quanto ao que rejeito, uma vez um diretor de cinema me disse que não gostava de teatro porque achava tudo muito exagerado, falso, e um escritor, que sentia vergonha no lugar dos atores por insistirem em fingir, usando as palavras dele, “daquela forma”. Não gosto do que ambos provavelmente devem ter visto para chegarem a conclusões como essas.

Vejo quatro características marcantes em sua dramaturgia: a primeira é que suas peças são essencialmente realistas; a segunda, estrutural, diz respeito a um recorte cinematográfico na construção das cenas; a terceira, ligada ao texto, é o enfoque substancial no ordinário sempre carregado de lirismo (nisto seu teatro se aproxima muito de sua poesia); por fim, embora tratem de temas caros à existência, seus personagens têm sempre um quê de humor, parecem rir de si mesmos. Como você pensa seu teatro?

Durante a temporada de Aos ossos que tanto doem no inverno (meu primeiro texto) eu ficava no meio da platéia, observando as pessoas. No início não entendia muito bem por que elas riam em momentos que eu julgava impróprios. Mas logo fui percebendo que na maioria dos casos eram risos incertos, buscavam cúmplices, vacilavam como risos numa montanha-russa. E isso geralmente acontecia quando o realismo ao qual você se refere flertava com um certo absurdo. Se você me pedisse uma característica comum a todas as minhas peças até agora – acho que ainda é cedo pra ter um teatro estabelecido – diria o patético. O ser humano só é herói em mesa de bar, entrevista de emprego e quando quer levar alguém pra cama. O resto do tempo é um animal patético, melancólico e solitário que ri de si mesmo ao constatar que está realmente cercado, que não há saída. E são momentos como esses, que podem ser abafados pela aparente normalidade que envolve uma mesa de café da manhã, por exemplo, que me interessam.