Cartaz de Sábado à Noite de Ivo Lopes Araújo

Ivo Lopes Araújo: Sábado à Noite

Sábado à Noite é um dos mais exemplares filmes da nova safra audiovisual de Fortaleza. Ivo, que havia fotografado Vilas Volantes, de Alexandre Veras, outro DOCTV, realizou um projeto em continuidade com Vilas Volantes no que tange ao essencial: à possibilidade de, mesmo diante de um projeto destinado para a televisão, realizar um projeto de refinada linguagem cinematográfica, radicalizando o enfoque do filme anterior. Mas se Vilas Volantes se passa no litoral praieiro cearense, em encontro com um interior, em Sábado à Noite, Ivo mergulha no coração do centro urbano de Fortaleza. O dispositivo do seu filme está no acaso: seguir pessoas encontradas pela equipe sem arranjo prévio ao longo de um sábado à noite pelas ruas de Fortaleza. Com isso, o olhar de Ivo Lopes está repleto por um sentimento pela cidade, sentimento de um vazio e de um distanciamento, que rompe os estereótipos de um sábado à noite: o único encontro verdadeiro da câmera, mais do que com “personagens exóticos” é com um conjunto de pombas ao amanhecer do dia, em plena Praça do Ferreira, já ao final do filme. Por outro lado, Sábado à Noite dialoga com filmes experimentais vanguardistas que observavam o fluxo das cidades como um inventário, como Berlim, Sinfonia da Metrópole. Com isso, a opção de Ivo Lopes é por um cinema de apuro formal, aprofundado pela fotografia em preto-e-branco, em consonância com o documentário contemporâneo que, mais que oferecer informações e dados sobre o objeto documentado, procura, através de planos alongados e um olhar singular para esse espaço físico, promover uma reflexão sobre os próprios limites do documentário e sobre a posição do realizador diante de seu objeto.

Com isso, Sábado à Noite quebra todas as expectativas que temos sobre um possível “documentário para a TV”, apresentando-se com uma proposta instigante, um trabalho de ponta com o que se vem pensando em termos de linguagem no cinema contemporâneo. Um documentário livre, que surpreende primeiro pelo que ele não é. É, como já dissemos, um “anti-doc-para-TV”, no sentido de recusar o tom didático sobre o tema e a ênfase em entrevistas. Apresenta também, uma visão completamente distante do estereótipo do Nordeste que temos contato através do cinema brasileiro. Apesar de Fortaleza estar o tempo todo no filme, num certo sentido, o filme poderia ter sido realizado em qualquer outra metrópole brasileira. Aqui, estamos diante de uma Fortaleza urbana, longe do discurso de um Nordeste rural ou da exploração da miséria. Além disso, é um “anti-Sábado à Noite”, pois tudo aquilo que a princípio poderíamos esperar de um sábado à noite não está lá (as festas, a diversão, a alegria, a surpresa, o encanto, a vida).

Mas então o que está no filme de Ivo? Estão a cidade, os carros, as coisas e (às vezes) as pessoas que passam e que ficam. A cidade em preto-e-branco em seus planos estáticos e alongados. O percurso, de carro, ônibus ou van. Há um enorme sentimento e uma enorme tristeza em pertencer àquela cidade. Há um olhar íntimo e ao mesmo tempo um olhar distante de tudo aquilo. Há uma enorme solidão num sábado preto-e-branco em que o esperado encontro nunca acontece. Há um fiapo de narrativa, um “discurso do acaso” que permeia Sábado à Noite, mas no fundo nada é por acaso: nesse sábado à noite o realizador encontra exatamente aquilo o que ele já esperava. Ou seja, não encontra nada. Sábado à Noite é um percurso pela noite e ruas de Fortaleza à procura de um encontro. Encontro que nunca se realiza até o final do dia, quando num relance de poesia e de ironia, a câmera fica com os pombos, elemento-síntese dessa mistura de liberdade e solidão que o filme tanto procura.

Sábado à Noite também foi importante porque gerou uma ampla discussão com a própria cidade e os realizadores cearenses, despertando certa polêmica. Isso porque Ivo e os integrantes do Alumbramento organizaram uma sessão de lançamento do filme no maior cinema da cidade, o Cinema São Luiz, localizado na Praça do Ferreira. Considerado um “cinema decadente”, por ser um cinema de rua no centro da cidade, a exibição fez parte de um conjunto de iniciativas desses realizadores no sentido de despertar o interesse para a região central da cidade (vale à pena citar outros filmes, como Rua Governador Sampaio, e o próprio fato de vários dos realizadores terem se mudado para o Centro). Com uma estratégia de divulgação agressiva, com panfletos e cartazes, apesar de contar com pouquíssimos recursos, a exibição lotou o cinema São Luiz, reunindo mais de 600 pessoas, atraindo atenção para o movimento audiovisual de Fortaleza e gerando uma grande controvérsia, estimulada inclusive pelos jornais locais, sobre o suposto tom hermético do filme, que se afastaria do tradicional “documentário para televisão”. Discussão que comprovou a posição singular dessa nova geração de realizadores, que “vieram para ficar”.


Longa Vida ao Cinema Cearense: inventário pessoal

Irmãos Pretti

Os cariocas Luiz e Ricardo Pretti ocupam uma posição estratégica no contexto do novo cinema fortalezense. No Rio de Janeiro, já possuíam uma filmografia extensa, realizando, de forma completamente solitária e artesanal, um sem-número de curtas e, inclusive, longas-metragens. Desiludidos com a superficialidade do cinema alternativo carioca, foram morar em Fortaleza, e, incentivados por Ivo Lopes Araújo, entraram em contato com a efervescência da cena audiovisual da cidade. Começaram a promover oficinas, palestras e cursos sobre audiovisual, entre os quais se destaca os cursos sobre cinema contemporâneo. Com ampla formação de cinefilia, foram grandes incentivadores dos jovens realizadores locais, especialmente estimulando a discussão sobre os primeiros vídeos que surgiam em espaços como o Cineclube Cine Caolho. Além disso, permanecem com um ritmo frenético de realização, sempre com filmes sem nenhum incentivo estatal ou de editais públicos, de forma completamente independente. Apenas recentemente seus trabalhos vêm sendo descobertos pelos festivais de cinema brasileiros, em especial após a seleção para o Festival de Oberhausen de seu curta Sabiaguaba. Apenas no primeiro semestre de 2009, finalizaram um longa totalmente captado por um aparelho celular (Rumo, possivelmente o primeiro longa-metragem brasileiro totalmente captado por um celular, a ser exibido no Cine Ceará), e “colocaram na lata” mais dois longas-metragens: Road Movie, um projeto coletivo de quadro diretores, e Filme de Maio. Esse breve panorama fornece um espelho de sua compulsiva e urgente produção. Paralelo a isso, participam como membros da equipe (edição, câmera, assistência, etc.) de grande parte dos curtas cearenses recentes, de modo que é bastante improvável que seus nomes estejam ausentes dos créditos de qualquer um dos filmes realizados na cidade, ainda que simplesmente nos agradecimentos.

Às vezes é melhor lavar a pia do que a louça, ou simplesmente Sabiaguaba, selecionado para o Festival de Oberhausen, é um filme pessoal, o que já é revelado pelos créditos, que indicam que toda a equipe do filme é composta exclusivamente pelos dois irmãos, inclusive participando como atores, representando os papéis de si mesmos. Como trabalho pessoal, o curta é uma reflexão sobre a própria trajetória dos Irmãos Pretti e sobre o sentido de seu “êxodo urbano”. Ao chegar em Fortaleza, os irmãos se retiram no interiorano bairro de Sabiaguaba. O curta se passa num único dia, quando os irmãos acordam, e esperam os donos da casa, moradores locais, chegarem. Enquanto esperam, eles convivem com esse novo espaço físico e convivem consigo mesmos. Os irmãos (autores-atores-personagens) são, portanto, estrangeiros em relação a essa casa e a esse espaço físico. No entanto, a visão desses estrangeiros é totalmente diferente de um olhar exótico ou curioso em relação a esse lugar outro, a que eles não pertencem. Seu olhar em relação a esse novo espaço não possui uma ânsia de uma descoberta, ou um senso de novidade, mas evidencia uma monotonia e um sentido de inércia, cristalizados nessa eterna espera dos amigos que nunca vêm. Enquanto “esperam Godot”, ambos vivem “dias em branco”: cochilam, acordam, fazem exercícios, preparam comida, cantam, criam. Fugindo das estruturas narrativas mais convencionais, em Sabiaguaba os dois irmãos “são”, mais do que “representam que são”, o que dá ao filme um aspecto contemporâneo que se insere num limite tênue entre a ficção, o documentário e o experimental, numa vertente estilística que se alinha às discussões estéticas de cineastas tão diferentes quanto Apichatpong Weerasethakul, Pedro Costa ou Claire Denis.