
A professora angustiada diante a obra de Goethe em Passos no Silêncio de Guto Parente
Passos no Silêncio, de Guto Parente, é um filme sobre o complexo universo da criação, abordando os conflitos de uma professora de alemão diante do desafio de traduzir uma obra de Goethe do original alemão para o Português. Ao se deparar com o texto, a professora mergulha de tal forma no âmago do processo criativo que, diante da dificuldade em transpor o sentido último do texto para outro idioma, acaba por assumir uma angústia que a faz revisitar diversos fantasmas e conflitos pessoais. Com isso, Guto faz um comentário sobre o próprio desafio de transliteração de uma obra literária, com um componente metalingüístico sobre o próprio processo de criação. Concordando com os Irmãos Campos, Guto afirma implicitamente que traduzir é também criar, de modo que, assim como a professora mergulha na obra de Goethe, o próprio Guto mergulha no interior desse mesmo universo. Isto é, ao invés de simplesmente adaptar uma obra literária para o formato do curta-metragem, Passos no Silêncio promove uma dobra sobre a sua própria narrativa: é um curta sobre os desafios em se ler uma obra outra, em “traduzir” um mundo para o outro, de modo que também se revela uma reflexão sobre as possibilidades de interação entre a literatura e o cinema. Dessa forma, é muito significativa – e radical! – a opção do diretor em apresentar o texto de Goethe em alemão sem a tradução em Português. Sua tradução se dará não pelas palavras como se numa legenda, mas pelo próprio filme em si, isto é, pela projeção da professora no universo do texto, ou ainda, no amplo contexto imagético que irrompe a partir desse contato com o texto. Toda a claustrofobia da parte inicial do filme entra em contraste com um súbito corte que nos revela um deslumbrante ambiente em expansão, que nos remete à força primitiva da natureza como motor do processo de criação. No entanto, o percurso dessa professora por essa natureza não tem necessariamente uma relação de encontro idílico ou romântico, mas marca as agruras desse encontro desigual com uma tentativa de liberdade, ainda que fugidia.
As Corujas, de Fred Benevides, também é uma reflexão sobre as relações entre cinema e literatura, pois, a partir mesmo de sua premissa, já que se trata de um projeto contemplado por um edital para a realização de um “teleconto”, é, acima de tudo, um radical exercício de adaptação de um texto literário, pois suplanta o universo das palavras mediante um seguro trabalho de direção que orquestra de forma orgânica os diversos aspectos da linguagem cinematográfica – tempos, câmera, luz, som, decupagem – para transformá-lo num cinema repleto de climas e atmosferas sombrias. O curta acompanha o cotidiano de um vigia de um necrotério, que tenta afugentar as corujas que sobrevoam o salão e mordiscam os corpos que esperam seu juízo final. Obcecado por sua tarefa rotineira que se revela cada vez mais infrutífera, como se lutasse contra o inevitável apodrecimento dos corpos, ou ainda contra a materialidade latente da morte, o vigia do necrotério perscruta as corujas, cujos rastros se vêem apenas pelas sombras de suas asas. Com isso, cria um clima ambíguo entre o delírio, o sonho, a alucinação ou mesmo a assombração, dando ao curta um tom de cinema fantástico. Diante de sua rotina macambúzia, o vigia se arrasta como um semi-zumbi de um filme de Romero, ou como se fosse Max Schreck, por sua semelhança física, ou ainda como o Emil Jannings de A Última Gargalhada, valorizado pelo som dos passos que funcionam quase como um leitmotiv sonoro para todo o filme. Essa associação nos remete ao expressionismo alemão, seja pelo tom fantástico, pelo cinema de sombras ou ainda pelo diálogo com a morte. De outro lado, As Corujas dialoga com o cinema contemporâneo, especialmente pelas referências implícitas ao cinema de Bela Tarr, especialmente pela elegância do trabalho de câmera e pelos arrojados planos-sequências. Esse jogo tem seu ápice num plano de orquestração complexa, em que a câmera elabora duas panorâmicas de 360 graus, em sentidos opostos, numa movimentação autônoma ao movimento do próprio personagem, mas de modo que em uma passagem, o olhar da câmera (ou ainda, o olhar do espectador) se confunde com o olhar do vigia, procurando, através de uma lanterna, que projeta um duro feixe de luz nas paredes do salão, algum vestígio concreto das corujas que lhe assombram o sono.
Marcelo Ikeda
Cineasta e crítico de
cinema. Diretor de Em Casa, O Posto, Desertum, entre outros. Assina o blog Cinecasulofilia.
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