Os Alumbrados e o cinema contemporâneo cearense

Introdução

No cinema brasileiro atual, a maior parte das obras interessantes tem surgido de realizadores que desenvolvem uma obra autoral, mas que atuam em contextos isolados. Há, juntamente com o cinema da Teia, em Belo Horizonte, no entanto talvez uma única exceção de relevo: o cinema cearense, que vem despontando com uma nova geração de realizadores que desenvolvem um trabalho conjunto. São cerca de quinze realizadores que trabalham como um grupo: freqüentemente um realizador trabalha num filme de outro realizador, ocupando uma função técnica (por exemplo, o diretor de um filme é o montador num filme de outro diretor). Esse fato comprova que, acima de tudo, esses realizadores são na verdade amigos, que não só fazem cinema juntos, mas vivem, respiram, divertem-se juntos, que possuem afinidades íntimas que vão além do “campo profissional”, mas que se estendem a um modo de viver.

Esse movimento no cinema de Fortaleza é bem recente, por outro lado já tem um histórico que se deve, ainda que brevemente, destacar. Iniciou-se com o estímulo de pioneiros como Alexandre Veras e Ivo Lopes Araújo. Alexandre Veras é um dos fundadores do Alpendre, associação que faz interagir diversas formas de manifestação artística num mesmo espaço. O próprio Veras vem se destacando como um dos mais criativos realizadores recentes de videodança. Além de organizar diversas oficinas e cursos de audiovisual, tanto na parte técnica quanto teórica, Veras foi um dos idealizadores da Escola do Audiovisual, cuja importância falaremos a seguir. Além disso, dirigiu e roteirizou um dos mais importantes trabalhos dessa nova safra de realizações cearenses: o documentário de média-metragem Vilas Volantes, contemplado pelo DOCTV. O impacto de Vilas Volantes, seu rigor formal e seu apelo visual, foram determinantes para tudo o que tem sido feito posteriormente em termos de audiovisual em Fortaleza.

Ivo Lopes Araújo, após retornar a Fortaleza depois de ter estudado cinema no Rio de Janeiro, tornou-se uma das figuras de destaque da nova geração de realizadores cearenses. Ministrou com Veras diversas oficinas no interior do Ceará, e estabeleceu uma parceria com Veras, assinando câmera e fotografia em Vilas Volantes. A excelência do trabalho de Ivo como fotógrafo neste filme fez com que surgissem diversos convites, de modo que, em paralelo a seus projetos como realizador, Ivo tornou-se um dos mais promissores jovens diretores de fotografia do cinema brasileiro. Fotografou diversos curtas do também cearense Petrus Cariry, entre os quais se destaca Dos Restos e Das Solidões, pelo qual recebeu diversos prêmios de melhor fotografia em festivais de cinema brasileiros. Seu primeiro longa como diretor de fotografia foi O Grão, também de Petrus Cariry. Recentemente, fotografou dois filmes produzidos pela Teia, em Belo Horizonte, dirigidos por Sérgio Borges e Marília Rocha, ainda em fase de finalização. Como realizador, seu trabalho mais conhecido é Sábado à Noite, que na linha aberta por Vilas Volantes, é mais um trabalho radical contemplado pelo DOCTV. Pelo filme, Ivo recebeu o prêmio de melhor filme do júri jovem do Festival de Tiradentes em 2008.

Junto aos dois realizadores, Gláucia Soares, que também veio do Rio de Janeiro para morar em Fortaleza, foi figura central nesse movimento, como uma das principais responsáveis pela montagem do projeto da Escola do Audiovisual, um curso de extensão com duração de dois anos que, aliando disciplinas teóricas e práticas, recebeu grandes profissionais vindos de todo o país (de João Luiz Vieira a Karim Ainouz) para que cada um desse uma semana de aula para uma turma de cerca de 20 alunos. O caráter inovador da ementa de disciplinas da Escola fez germinar um ambiente receptivo para os alunos, que rapidamente começaram a realizar seus próprios trabalhos, alguns deles que vieram a circular por festivais de cinema no país.


Still de Praia do Futuro

Após o término da primeira turma da Escola do Audiovisual, alguns alunos, e mais outros integrantes (como o próprio Ivo e Gláucia) formaram a Alumbramento Produções. Mais que uma produtora registrada (o que até de fato vieram a se tornar), a Alumbramento funciona como ponto de encontro dessa nova geração de jovens realizadores, para troca de idéias, reuniões e projetos conjuntos, que continuam a crescer, exponencialmente. Um dos projetos centrais para a consolidação do Alumbramento é o longa-metragem Praia do Futuro, projeto coletivo composto por 16 realizadores que dirigiram episódios de cerca de 5 minutos livremente inspirados por um dos mais típicos cenários de Fortaleza: a Praia do Futuro.

É dessa forma que vem surgindo um grande conjunto de filmes feitos por realizadores em Fortaleza, com grande liberdade formal. Apesar de ser um grupo, e pessoalmente muito próximos, uma interessante característica do cinema do Alumbramento é a diversidade estilística entre os filmes. Ao invés do típico cinema autoral em que os filmes são conhecidos por imprimir certa marca reconhecível, que afirma a singularidade desse grupo em particular, ou mesmo de um realizador, é como se o projeto do cinema de Fortaleza fosse uma eterna metamorfose, um constante vir-a-ser, cujos limites nunca são previamente demarcados, mas ao contrário, sempre questionados, ampliados pelo filme a seguir. Em comum, uma característica constante é o diálogo com a videoarte e as artes plásticas, presente seja pela própria formação da Escola do Audiovisual, seja pelo próprio diálogo com outros movimentos artísticos da cidade, além da admiração por realizadores da vanguarda americana como Jonas Mekas, Bill Viola, Maya Deren, Stan Brakhage, Peter Kubelka e Kenneth Anger, entre outros. Outra característica é o diálogo com o cinema contemporâneo, possibilitado pela profusão da internet, especialmente as ferramentas peer-to-peer que tem tornado possível o acesso a filmes raros. Se alguns anos atrás era impossível para o público de Fortaleza conhecer filmes mais obscuros da mesma forma que o público de Rio e São Paulo, hoje, essas barreiras se quebraram. É comum ouvir nas reuniões do Alumbramento discussões sobre o novo filme de Pedro Costa, Bela Tarr, Albert Serra, Apichatpong, entre outros. É como se, através da internet, o cinema de Taiwan fosse muito mais próximo do que o cinema de Recife, por exemplo. De fato, outra característica do grupo é a ausência das representações tradicionais do Nordeste, seja de questões sociais, ou mesmo “folclóricas” ou “exóticas” ligadas a um interior rural. É um cinema, sobretudo de linguagem cinematográfica, que certamente está entre as mais instigantes experiências realizadas hoje no Brasil.

A seguir, destaco alguns filmes e realizadores singulares nessa safra diversa e prolífica. Esta lista servirá na verdade como primeira aproximação ao cinema contemporâneo cearense. Aqui estarão ausentes nomes que têm realizado trabalhos exemplares, como os de Gabriel Martins, Thaís Dahas, Ticiano Monteiro, Hugo Pierot, Ythallo Rodrigues e Uirá dos Santos, entre outros.