Dois cineastas japoneses
Cartaz de tokio.sora de Hiroshi Ishikawa
Cartaz de tokio.sora de Hiroshi Ishikawa

O contato do público brasileiro com as cinematografias estrangeiras a partir das salas de cinema – fora o cinema hegemônico hollywoodiano – vem sendo cada vez mais intensamente mediado pelas típicas convenções do circuito do chamado “cinema de arte”. No Brasil, quem mora no Rio de Janeiro ou em São Paulo tem um bom acesso a cinematografias alternativas, através de dois grupos exibidores: o Grupo Estação ou o Circuito Cinearte, controlado por Adhemar de Oliveira. Fora desses dois grandes centros, o acesso se torna mais pontual e menos sistemático. Ainda assim, é preciso alertar que esse acesso é muitas vezes mediado por uma definição prévia de um certo “padrão de qualidade”: os grandes festivais internacionais de cinema. A não ser que o diretor já seja um nome consagrado no panteão do cinema de autor contemporâneo (Almodóvar, Von Trier, etc.), um filme estrangeiro só consegue sua distribuição internacional a partir do destaque num grande festival internacional. Ou seja, só conseguimos assistir a um filme de um diretor expressivo como Philippe Garrel, quando Amantes Constantes foi premiado no Festival de Veneza, com um prêmio de melhor direção.

Isso faz com que tenhamos uma visão bastante parcial do que vem sendo produzido pelas cinematografias locais, já que o seu acesso é mediado pelas premiações dos festivais internacionais, em que os critérios políticos podem ter muito mais influência que as qualidades propriamente cinematográficas dos filmes. Um exemplo dessa distorção é a enorme escassez de filmes latino-americanos em cartaz: é mais fácil assistirmos a um filme romeno do que um filme chileno. Ou ainda, recentemente, podemos assistir a um filme peruano (A teta assustada) apenas devido à premiação num festival de grande expressão como o Festival de Berlim. Mas se o filme não tivesse sido premiado isso o tornaria “menos bom” a ponto de não ser lançado comercialmente?

Cartaz de L´Amant de Ryuichi Hiroki
Cartaz de L´Amant de Ryuichi Hiroki

No caso dos cineastas estreantes, essa situação se agrava, pois, como não possuem uma referência prévia para os espectadores, os distribuidores consideram que esses filmes implicam uma maior parcela de risco, sendo ainda mais cautelosos para o seu lançamento comercial. Com isso, mesmo a premiação ou o destaque nos festivais internacionais pode não ser suficiente para o seu acesso nas salas de cinema, como foi o caso de cineastas centrais para o cinema contemporâneo, como Carlos Reygadas, Apichatpong Weerasethakul ou Naomi Kawase.

Dessa forma, existem cineastas de grande talento cujos nomes se revelam praticamente inacessíveis ao público brasileiro. Seus filmes escapam mesmo do público cinéfilo que freqüenta os principais festivais de cinema brasileiros, como o Festival do Rio ou a Mostra de São Paulo. Quero aqui destacar dois desses nomes, no contexto do cinema japonês deste século: Hiroshi Ishikawa e Ryuichi Hiroki. Dois cineastas injustamente desconhecidos.

Hiroshi Ishikawa

Hiroshi Ishikawa é um diretor pouco conhecido até mesmo no Japão, e dirigiu até o momento apenas dois filmes, ambos bem elogiados: tokyo.sora (2002) e Su-ki-da (2006). Ambos abordam o universo feminino com muita sensibilidade. Em seu filme de estréia, tokyo.sora, Ishikawa compõe uma espécie de mosaico dos relacionamentos humanos no Japão contemporâneo, através do ponto-de-vista de seis mulheres solteiras de cerca de trinta anos, a partir de suas buscas pessoais e profissionais, sua solidão. As seis histórias são vistas de uma forma independente, entrecruzadas a partir da montagem, que organiza tramas paralelas, mas ao mesmo tempo compõe camadas independentes, sem a preocupação de relacionar uma história à outra. tokyo.sora um olhar para um Japão contemporâneo a partir de um ponto de vista feminino, calcado na solidão e na dificuldade do afeto. Ishikawa se aproxima de alguns aspectos do cinema contemporâneo: não há propriamente plot no filme, e sim o compartilhamento de alguns momentos dessas mulheres, com a ênfase em tempos fracos e grandes momentos de silêncio. Ishikawa demonstra grande sensibilidade e delicadeza ao retratar um universo feminino com um cinema essencialmente de observação, convivendo e habitando junto com suas personagens, com poucos momentos de ação propriamente dita.